Segunda-feira, 4 de Dezembro de 2006

Tango



(Pintura: "Tango"  de Louise Leriche-Brisson)


No lusco fusco da sala, os candeeiros a tremeluzirem as suas chamas de gás por dentro de abatjours art-deco, dispersas por entre as mesas baixas, anacrónicas mas tão certas, tão inspiradoras ali, tectos baixos e aromas de madeiras nobres e exóticas a insinuarem-se em casamento perfeito com os aromas dos doces tabacos de cachimbo e charutos que deixam no ar farrapos de longas nuvens azuladas que intersectam aqui e ali o luar que de lá de fora se insinua pelas gandes janelas latinas, qual nuvens que, após a chuvada, deixam por entre elas passar fortuitos raios de sol.

As guitarras e o piano hesitam em pequenos acordes perdidos, os músicos nos seus escuros paletós de risca e lenços de seda branca na lapela, a encontrar o tom, dispersos, absortos, sombrolhos franzidos na concentração. Na sala o silencio já se acomoda, natural e expectante, as conversas já irrelevantes, já decididas a guardarem lugar para a música, à espera que a poesia de tudo aquilo junto invada os sentidos, e inebrie, e inspire, e faça sentir.

Os olhos dela faiscam. Intensamente,  quase imóvel, de longe ela fita-o sem falsos pudores, sem hesitações, frontal e evidente no seu desejo, os lábios voluptos, vermelhos, ricos, a reflectirem a chama dos candeeiros, entreabertos num mudo pedido, irreflectido e involuntário, apenas visível se procurado, se desejado também.

Sonhador, enfeitiçado, ele aproxima-se, lento mas em passada decidida, e, numa carícia leve mas intensa, a pele dos seus dedos apenas aflorando-os, ele deixa a sua mão, com a firmeza e suavidade que apenas existe na magia da paixão, passar-lhe pelos cabelos negros, fartos, que lhe caem pelos ombros, os olhares presos, agora já tão perto, o pensamento a dar lugar à apaixonada entrega que apenas é, apenas existe, e apenas tem um momento para sempre: agora.

Os acordes finalmente encontram-se em uníssono, em crescente, ritmo poderoso a subir, a subir e a impor-se finalmente, as mentes agora vazias, e agora só existe uma realidade - ou um sonho. O Tango.







I
rresistívelmente, em conjunto e sem ensaio, eles já estão no Abraço, com a firmeza e familiaridade de quem se conhece desde sempre, os olhares presos a não vacilarem por um momento, e caminham juntos, o mesmo ritmo, o mesmo passo, a mesma decisão, a mesma pureza e comunhão com o Tango. Súbitamente, rodam. O amplexo parece mais poderoso, os movimentos parecem únicos, e mais que os olhares, mais que a intensidade da paixão, os seus corpos falam agora, os seus corpos ganham vida, comunicam toda a alma, todo o desejo, toda a intensidade daquilo que eles vivem, para sempre perdidos num momento cristalizado ali mesmo. Os que os rodeiam sorriem, sem saber que o estão a fazer, respirações contidas, quase embaraçados pelo voyeurismo, invasores naquele tão grandioso momento, naquela tão poderosa e imparável paixão que aqueles dois corpos, aquelas duas almas ali comungam com as guitarras, com a musica, com a silenciosa poesia dos movimentos.



Eles vivem a sua história. Estão a vivê-la ali mesmo, em total oblívio do que os rodeia, uma história de paixão intensa, de amor doloroso de tão forte, de atracção e sensualidade imparáveis, quase impossíveis, quase fatais. Está ali o momento do encontro, o primeiro ciúme intenso e esmagador, a apaixonada reconciliação, a sublime paixão partilhada, irreflectida, explosiva, a comunhão de cada momento, a partilha total dos corpos, das almas, da poesia, da música, do ser...

E subitamente, o silêncio. Total. Num abraço de beleza quase clássica, ele ampara-a nobremente no seu desmaio que simboliza a dôr da separação, que afinal vai acontecer agora, agora que toda uma paixão intensa e sublime se viveu num único momento, numa única vida que só existe até ao Tango parar. E o Tango já parou, as últimas vibrações das guitaras e acórdeão a reverberarem ainda por entre as nuvens de tabaco, as conversas recomeçadas, mas os Amantes, ainda de olhar preso e intenso, agora irrevogávelmente ligados, agora talvez com os destinos jamais separáveis, retiram-se, o enlace da paixão inequívoco, mas ignorados e esquecidos por todos que agora recuperam já as conversas interrompidas.


E os Amantes desaparecem finalmente pelo pórtico alto, e as suas sombras diluem-se por entre o luar que lá fora se espalha, prateado, sobre a calçada da rua deserta, negra mas brilhante de o reflectir, iluminando-os ténuemente na sua jornada que se presente agora se iniciar.









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(Nota: Este post é dedicado especialmente à Witty. Espero que gostes! Tu inspiras-me. Serás a minha musa romana? :)

sinto-me: Inspirado
música: Tango Argentino
publicado por Sergio às 16:55
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