Sexta-feira, 22 de Setembro de 2006

Perdidos & Achados

Continuando este nonsense das imagens perdidas, mas que não estão realmente perdidas :-),  há duas coisas que perdi recentemente, e são, de certo modo assim meio preverso, “imagens”, ou melhor, estereótipos. Não, não foi a inocência, essa já lá vai, inadequada e rápidamente substituida por por uma tendência embrutecedora para o que chamo de “credulice”. Enfim, de novo invento palavras. Mas é verdade, sou crédulo, mas não inocente, ingénuo mas não inteiramente burro, sabidão porém pouco esperto. Contradições, não mais do que “perdidas e achadas” também.

Também, afianço-vos, não se trata da minha inspiração ou, tampouco, da minha insónia crónica. Dessa última não me livro, solitária mas completamente agarrada às minhas noites ou madrugadas. A inspiração, essa, que aliás ainda não provei que alguma vez tivesse possuido, só se for para dizer uns disparatezinhos por aqui, uma vez que em mais lugar - ou forum - nenhum tenho “lata” para os expressar... portanto, “perdidos” não são: estes encontram-se aqui.

O que eu perdi, realmente, foi um sonho e uma certeza.

“Como se perde um sonho?”, questionar-se-á o meu atento, quiçá insone, decerto raro, leitor (ou leitora, claro!). Pois é. Um sonho perde-se quando se deixa de o ter. Sem querer afirmar simplesmente o óbvio, de facto tem aqui uma nuancezinha: eu não disse que é quando se “destrói”, ou mesmo quando se “altera” ou “esquece” o sonho. Nada disso. Este perde-se, inexorávelmente, quando pura e simplesmente deixa de lá estar. Quando a gente* o procura (estão a ver a cena?) e não o encontra mais.

É, sem dúvida, algo que soa a trocadilho fácil, a artifício barato de linguagem, só para fazer um floreadozinho. Mas, por favor, tentem ver a coisa: a gente sonha com algo, intensamente, deseja-o e vive-o. Fá-lo acordado, até no banho ou a caminho do trabalho, sei lá, até sem querer quando se está a falar com alguém e algo o despoleta, involuntário, forte, incipiente, fazendo com que os nossos olhos se percam, divaguem num ponto indefinido e distante, mesmo deixando o nosso interlocutor meio sem saber se estamos simplesmente a não lhe prestar atenção – aliás com razão, claro, porque estamos é a prestar atençao ao tal sonho... E, de repente, deixamos de o ter. Simplesmente desaparece. Sem substituição aparente, sem rasto, sem memória activa, residual que seja. Só nos lembramos dele um dia, fortuitamente, vagamente, como um reflexo, remoto, como algo a dizer-nos que aquele pequeno espaço do nosso imáginário, agora vazio, era dantes ocupado por algo que, afinal, parecia tão consistente, tão presente.

Então perde-se o sonho. Só então se nota que ele sequer existiu, que ele algum dia, em algum ridículo e patético momento, nos ocupou uma sinapse ou duas. Ridiculo, patético, porque, afinal agora já nem nos lembramos exactamente porque tinhamos o sonho, tão distante nos parece, diluido pela razão ou seja lá  o que fôr que o fez perder-se.

Há, neste processo todo, um ponto qualquer em que a “certeza” se perde também, e foi o que preversamente me aconteceu, asseguro-vos. A certeza de concretizar o sonho. A certeza de que sem sonho, sem certeza de o ter, este mais tarde ou mais cedo se perderá.

Portanto perdi também a certeza. E isso quebrou-me totalmente. Fez de mim um tipo insone e sem nada para dizer. Sou apenas um mamífero que já não acredita, já não completamente seguro de ser inteiramente bípede, que já não arrisca, que já pensa que dar uma pisadela na trampa ou ter que arriscar a vida saindo dum passeio para rua loucamente movimentada, porque há carros estacionados no dito, não deve sequer fazê-lo pestanejar, quanto mais refilar e gesticular que nem possesso com a falta de civismo ou de solidariedade, com a passiva (ou será activa?) agressão patente. Afinal, já desprovido da essencia do sonho e da força da certeza, apenas a razão, pura e simples, faz imperar o paradigma. O paradigma que faz com que os carros estejam estacionados no passeio porque não há parques de estacionamento, porque é caro fazê-los, porque sei lá, porque é preciso criar edifícios para pessoas, e passeios para elas andarem, mas é caro fazer estacionamento para esses mesmos cidadãos deixarem os seus carritos.

Não se deixem enganar, esta minha “refilice” de hoje não é sobre trampa de cão na sola do sapato, nem sobre carros estacionados em passeios. Nada disso. Nem sequer é uma “refilice” completmente desenvolvida – isso é só o mau feitio causado pela insónia. Este acto verborreico escrito tem só a ver com o meu sonho, o tal que se perdeu. Com a minha descoberta, aliás acidental, de que havia, de facto, um sonho, e que já nem sei onde está, já nem tenho completa certeza de que existiu.

Pois é. Sem sonho, estou apenas “à espera que o jogo acabe** ... Já nem me apetece provar nada, já não me motiva a luta ou a competição, já não vejo o amanhecer em nenhuma das minhas ideias, já não me estimula a aventura e a descoberta. O sonho ausente, agora quase já nem uma memória, só um vazio. Exacto, perder o sonho alterou o meu “paradigma”, a forma como vejo o mundo, os outros, o trabalho, o amor e... os sonhos. Alterou, sobretudo, a minha vontade de sequer tentar voltar a ter um sonho, seja este qual for.

E assim, resta-me a insónia, achada afinal. Pelo menos, resta-me a certeza de que a insónia ficará comigo. E uma dúvida inevitável, de novo a raiar o trocadilho, a soar a falsete: será que sem sonho, há só insónia?

Eu sei, a pergunta dos que “prescutam” isto, é inevitável: “Afinal, que raio era esse sonho, mesmo? Algo de concreto?”. Isso vai ter que ficar para outras insónias.

Enfim, tenho que me deixar de trocadilhos. E tentar dormir.


* E não refilemos com a expressão “a gente”. Toda “a gente” o diz. Essa expressão foi achada e não parece, de todo, perder-se mais... Não sonhei com ela. :-D

** Uso esta expressão com a devida vénia... não é minha, foi o que um amigo comentou sobre a minha atitude... Como não sei se ele o autoriza, não revelo quem foi ;-) Mas que, até debaixo do meu cinismo blasé, é verdade, é. Mais um redundante e desnecessário motivo de insónia, claro.
sinto-me: ...como sempre! (ou quase)
publicado por Sergio às 00:49
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Quinta-feira, 21 de Setembro de 2006

Imagem perdida

A imagem de topo parece ter-se perdido... alguém a viu??

(Sim, refiro-me à imagem que abrilhantava o meu cabeçalho, ali em cima...)
sinto-me:
publicado por Sergio às 15:52
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