Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2005

Corto Maltese: Uma Homenagem a Hugo Pratt


Hugo Pratt e Corto Maltese
Uma Homenagem, por Sergio de Sousa



Page: 1/5





Como o seu criador (um pouco como eu tambem), Corto Maltese é um cidadão do mundo, um cavalheiro da fortuna




Hugo Pratt precorreu mundo, esteve em lugares exóticos e navegou por muitos mares. Como ele, Corto &ecute; um romantico
viajante, misterioso e fleumático, que fez a sua propria linha da vida com uma navalha de barbear.


Sempre com o seu uniforme da marinha britanica, calmo e atento, ceptico e tantas vezes cínico, Corto
vê-se envolvido em enrredos e episódios
da historia conturbada deste século, desde a China às praias da Cornualha, dos mares do Sul à beleza de
Maracaíbo, da Amazónia a Africa.



Corto Maltese é um personagem fictíio mas cuja descrição é tão rica que inclui uma

biografia detalhada
.





''Sabes, a minha mãe era uma Cigana de Gibraltar,
uma feiticeira famosa, e ela conhecia bem os seus diabos...''




De certa forma, ele é o Alter Ego do própio Hugo Pratt, quiçá quem Pratt sempre desejou ser...
E, afinal, quem não
gostaria de ter vivido uma vida aventurosa e romantica como a de Corto Maltese?? ;-)


Com maestria e arte, talento nas letras, Pratt, esse cavallier de la fortune ele mesmo,
faz-nos participar
e desejar estar presente, lado a lado, com Corto Maltese e olhar nos olhos Venexiana
a má, ou beber da
sabedoria de um feiticeiro indio na Amazonia.
Apaixonado, um cinico Corto finge nada lhe tocar mas na esencia do seu intimo ele na verdade
anda numa busca
que jamais termina, como tantos nós...





O relato das suas demandas de lugares exóticos e aventuras começa pela mão de
Pratt nos mares do sul, nessa
fantastica obra prima que é "A Balada do Mar Salgado".






"Sou o Oceano Pacífico e sou o maior de todos".



Estas são as palavras que abrem "A Balada Do Mar Salgado", e com que Pratt abre também a grande aventura de Corto Maltese
a tinta da china, com o estilo minimalista mas poderoso que, confessadamente, influenciou tantos outros grandes
artistas da Banda Desenhada, como Milo Manara ou Guido Crepax,














De grande impacto dramático, favorecendo o grande contraste e jogando hábilmente com a
profundidade de campo nas imagens, o estilo de Pratt já foi, injusta e erradamente, algumas vezes confundido com
uma inabilidade para o desenho.



Com efeito, quando Pratt desenha os seus personagens estes são tão expressivos que é
impossível o leitor não se identificar imediatamente com as emoções expressas,
com o poder envolvente da narrativa nas suas imagens e texto.





Um poderoso exemplo da capacidade de Pratt de expressar as emoções pela imagem
como poderoso elemento narrativo está representado na Balada do Mar Salgado na cena em
que Corto Maltese, da janela do seu quarto, é visto em grande plano na altura em que Slutter
é fuzilado pelos ingleses. É de tal forma a expressão de Corto, que são
superfluas quaisquer palavras para descrever o que ele sente no momento: no espirito dos leitores,
que o acompanham já na sua frustração com todo o processo que leva á

execução, não restam dúvidas que o absurdo e inutilidade do que esta a acontecer
naquele momento consomem o cinico marinheiro no seu íntimo, afinal não tão frio e distante como quer
que os outros o vejam (N.A.:infelizmente não tenho a imagem dessa página, adoraria
poder colocá-la aqui...
)




Quanto á sua capacidade de desenhar, ainda, penso que bastará dar ao leitor aqui uns dois ou três
exemplos de imagens de Pratt, e o leitor julgará por si:







Slutter e Pandora:


A hora aproxima-se...




























Embora tentando não se comprometer nunca, na superficie, Corto Maltese é ele mesmo um amante da liberdade e da justiça. Tal facto ligado ao seu fado de homem que nasceu sem uma linha da vida na sua mão e que sempre se envolve com a mulher errada, condena-o á solidão e a mudar constantemente de lugar, em busca de paz ou de outra paisagem em que perdomine a tranquilidade e o mar azul, de que nunca se consiguirá separar...

Corto Maltese e as Mulheres


Os personagens femininos parecem ser de extrema importancia em toda a obra de Hugo Pratt e em
particular nas "aventuras" de Corto Maltese. Assim, tal tem que se mencionar aqui.



Do ponto de vista do próprio personagem, este é um romantico
completamente incorrigível, que nunca resiste aos encantos femininos. Tal caracteristica

é consistente com o estilo literário geral, que é romance e aventura por
natureza. No fundo, como seu alter ego, Corto é a imagem do seu autor, decerto...












Tango: Um poderoso e simbólico momento


As imagens de Pratt falam por si...



Com poderosos traços e simbolismo, Corto é retratado junto às mulheres de uma
forma que as dignifica. As mulheres que se cruzam com Corto Maltese e que lhe ficam no coração
são ricas em personalidade, emoções, sendualidade e são de facto diversas no
seu carácter e origens.




Não se tratam de "bonecas de papel", simplesmente presentes pela sua sensualidade ou beleza. Estas
são mulheres cuja presença é real e que são inteligentes e participantes no
enredo. Pratt explora, de novo com talento, a diversidade que a beleza feminina étnica possui e
retrata as mulheres de varias raças e origens de forma real e inconfundível. Quando vemos
uma Etíope, ela é MESMO inconfundívelmente Etíope, e esse facto é

visivel, de forma que chega a ser surpreendente para o leitor para tantas outras - inglesas, holandesas,
mulatas brasileiras, orientais... De facto, embora este capítulo seja dedicado a Corto e suas Mulheres, tal respeito
pela indentidade e etnicidade dos seus personagens é uma constante na obra de Pratt e visivel tanto
nos personagens masculinos como femininos...




Mas não se tenha nenhuma duvida: como o seu autor, Corto Maltese é um verdadeiro Homem
que gosta das mulheres e que goza de todas as caracteristicas de tantos outros homens que
vivem - e sofrem - todas as emoções, inseguranças e
contradições que acompanham habitualmente o
relacionamento com o sexo oposto. Corto, fleumático e pretendendo uma frieza ou distanciamento,
contradiz com essa atitude a sua constante busca daquela que lhe levaria o coração.













Diferentemente de Guido Crepax, um desenhador influenciado pelo estilo de Pratt, cujo enfase é

sempre nos aspectos sexuais de uma forma explicita,
senão exagerada, com prejuizo da riqueza narrativa em muitos casos, Pratt faz questão que as
mulheres de Corto sejam reais e nem sempre adere aos padrões de beleza em voga, artisticos
ou da sociedade em geral.
Apesar de, quando necessário à narrativa ou ao conteúdo, Pratt retratar as mulheres ou
as situações com grande sensualidade, em nenhum caso se poderá afirmar que estas
sejam apenas um pretexto para a representação do erótico.





Corto Maltese é um aventureiro inconformista, endurecido e curtido em aventuras a batalhas. Quando
se trata de mulheres, porém, o lobo do mar, sedutor e irresitivel, apaixona-se sempre
pelas mulheres erradas. Elas são assassinas, traiçoeiras e manipuladoras, espias ou, simplesmente, inteiramente dedicadas
a uma qualquer causa, sem lugar nas suas vidas para o místico marinheiro de Malta.



O Reluctante Defensor da Liberdade




As causas da Liberdade dos povos são outra constante da obra de Hugo Pratt, aqui também
presentes como nucleo de toda a historia de Corto Maltese. Porém, a causa da Liberdade do Individuo
é, sem dúvida, a principal motivadora de Corto que, reluctantemente, se ve constantemente
envolvido em causas mais profundas e de maior significado apenas porque o seu poderoso senso de respeito
pela justiça e direitos do individuo lhe não permitem virar a cara para o lado sem intervir.



Este é mais um aspecto da obra com que me identifico pessoalmente e que teve em mim, como
penso que tem em tantos outros jovens, um profundo impacto na formação das minhas
opiniões, ideais e consciencia politico-social, durante os primeiros anos da minha adolescencia,
altura em que eu, como tantos outros miudos, "devorava" Banda Desenhada.




E por isso que, na minha humilde opinião, a obra de Hugo Pratt deve ser vista não
como mero objecto de entretenimento, mas pelo seu potencial formativo e influenciador das ideias.



Corto vai desde a Siberia a China, a America do Sul, a Espanha em guerra, a Irlanda para vingar a morte
de seu amigo Pat Finnuncan, um militante do IRA, e rebentar com um quartel Inglês. Ele é
verdadeiramente um cidadão do mundo e um lutador da liberdade, mas afirma que a sua causa é
individual e que as suas motivações são egoistas em essencia, mas o leitor
não se deixara enganar, porque os seus actos falam por si.






O Autor: Hugo Pratt




Traduzido em muitas linguas, Hugo Pratt é hoje em dia um homem universal e sem duvida um artista que marcou o seu
tempo.



A sua ultima obra, Saint-Exupéry O Ultimo Voo (Casterman 1995), presta tributo a esse outro grande escritor
(lembram-se de "O Princepezinho"?) que
para mim tem tambem a caracteristica especial de ter sido um dos pioneiros da aviação comercial na europa,
afinal um aventureiro comtemporâneo de Corto Maltese, afinal um idolo de juventude do proprio Hugo Pratt...





Pratt nasceu em 1927 em Italia, filho de um Frances e de uma Italiana. A sua familia mudou-se logo a seguir ao
seu nascimento para Veneza, cidade que sempre o encantou com os seus misterios e canais, e que ele tão bem retratou
na Fábula de Veneza. Mais tarde, viveu na Abissinia com a sua familia, tendo voltado para uma Italia em guerra,
uma Italia de Mussolini...



Depois de se alistar no exército de Mossulini, na sequencia de um diferendo com seu avô, acabou a guerra
como interprete vestindo o uniforme Britanico.



Em Dezembro de 1945, com Mario Faustinelli e Alberto Ongaro funda a revista " Albo Uragano ". Mais tarde, em 1949, vai
para a Argentina onde conhece tantas personalidades influentes e que ele mais ou menos retrata ao longo da sua
obra. Em 1962 regressa a Europa, para a sua Veneza, onde se instala mas de onde parte para tantas viagens
pelo mundo fora, para lugares exoticos e dificeis de alcançar. Numa desses viagens, ao Brasil, Pratt tem dois filhos:
um com uma mulatinha brasileira e outro com uma india amazónica :-)



Hugo Pratt estabeleceu-se como um dos mais importantes artistas e autores de Banda Desenhada do mundo, antes de falecer
em Lausane, em 20 de Agosto de 1995. Nesse dia, o mundo perdeu um grande artista, um poeta das imagens, um prosador
das emocoes, um romantico de uma epoca que não voltará.











Este artigo foi originalmente publicado na Geociies, em 22 de Agosto de 1995,

em como minha Homenagem, humilde e privada, a Hugo Pratt que falecera dois dias antes.




Foi revisto e acrescentado para publicação na SerSo.com em 17 de Fevereiro de 2005.



publicado por Sergio às 12:09
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