Sábado, 13 de Agosto de 2011

Queres ser Escritor em Portugal? Desculpa, não se “pode” escrever em português...

 

 

Idealismos parvos e serôdios, coisas pessoais e ideias descuidadamente misturadas, emocionalmente atiradas para dentro duma sopa sem sentido e sem receita, fazem com que eu escreva.

 

Escrevo parvoíces medíocres, não me importo que o sejam, desculpo-me com a insónia. Não escrevo para ser lido, aqui em Portugal isso está reservado ou a estrangeiros ou a alguns, mais ou menos talentosos, a quem acho que as editoras dão o direito de serem publicados – mesmo que estas nunca leiam o que eles e elas escrevem.

 

Mas quando escrevo, faço questão que faça sentido. Que o meu discurso seja coloquial e que reflicta as minhas emoções e as dos meus personagens – ou o meu próprio. Que aquilo que eu escreva seja bem escrito. Porém, a nada chegarei com esse esforço, afirmam-me...

 

Enfim, não se pode escrever em Português, dizem-me. Ou seja, poder escrever, pode-se, mas que não se espere viver disso, que não haja ilusões. Portanto, e sem muito mais por onde estrebuchar sobre o assunto, o português não é, portanto, uma língua morta. É só defunta. Está em estado terminal, ou em limbo indefinível. E, pelo que oiço, nem o português do Brasil e as suas editoras tubarónicas trazem qualquer esperança. Só mesmo alguns africanos ainda conseguem convencer as suas editoras financiadas pelos seus estados a serem publicados. Infelizmente, vejo mais publicações de africanos poetas e brancos do que de africanos pretos e de prosa e discurso puro – e refiro-me aos que se dão ao trabalho da expressão portuguesa, claro.

 

Surpresa, hein? A nossa cultura, essas coisas todas que esses putos mal aconselhados continuam a estudar, mesmo os estrangeiros, mesmo lá no fim da Europa, de África ou da Oceânia – da Ásia? - não tem mais quem as publique.

 

É pá, ter tem: há sempre uns imbecis que podem imprimir páginas e que te dizem que podes perfeitamente pagar-lhes para te publicarem ou, claro, podes sempre oferecer o teu trabalho árduo, sem eles fazerem nada por isso, e até te publicam a título de lhes ficares eternamente agradecido, ou agradecida, por te terem feito o extraordinário favor de tentarem vender os teus livros, e de nada terem feito por isso – nem tentar vender.

 

Pois, e nem pagam o teu trabalho, nem promovem, nem nada disso. Inverta-se a coisa: tu é que terás a honra e o benefício de te terem publicado, e, aliás, fica super contente de terem ganho dinheiro contigo, aliás foi tão pouco que até te devias sentir envergonhada ou envergonhado por isso (notaram a minha tentativa de ser “politicamente correcto” aqui? E ainda nem comecei a falar das razões porque continuo a escrever com a “ortografia” antiga...).

 

Para mim, isso, “essa” dos “editores” a que me refiro, que infelizmente parecem mais que as mães, chama-se chulice. Pura e simples. É a mentalidade de bar de alterne, que pelo menos não engana ninguém, mas levada ao mundo dos editores (notem por favor a ausência de maiúscula na palavra “editor”!!). Os quais, se calhar, até vão lá prós bares de alterne gastar com as putas (que não dormem com eles, mas lhes sacam noites épicas de champanhe) o dinheiro que ganham com os livros que publicam de pessoas como tu e eu.

 

E depois vêm os vendidos e efebos que se fazem passar por críticos mas que são pagos como tal, e cumprem a solene missão de destruir tudo quanto fazes, a não ser que eles próprios tenham a perder com isso – ou a ganhar, por razões de “economia” de sociedade rica e muito jet-set, muito “não-se-sabe-bem-que-existe-mas eles-e elas-estão-lá-sempre”. Ou por compadrio e lealdade duvidosa que, reafirmo, deve ter a ver com a putas supracitadas e copos por lá pagos...

 

Sim, os que partilham do champanhe pago pelos tais idiotas que vão ao bar de alterne, e que aos efebos, às vezes ainda “armarizados” mas sempre não declarantes do facto, e respectivos acompanhantes, apenas oferecem as “migalhas”... mesmo que os ditos não o sejam, pelo menos do papel de efebos ninguém os safa :) Nem as putas lhes dão a “atenção” pretendida, elas sabem!!

 

Geralmente, esses imbecis, os tais efebos ou pseudo-intelectuais, habitualmente portadores de barbichas nojentas, onde se penduram pedaços de “pasta” dos seus caros almoços em restaurantes da moda, alguns com os seus cachimbos anacrónicos, todos vegetam em duas áreas fundamentais: a dos pseudo intelectuais, que já são “teus” profes lá em ”letras”, “esquerdistas” e atrasados, e que honestamente até acham que o que escreves não presta porque ainda não ouviram nenhum professor, jornalista de renome ou editor (onde é que eles estão?!) dizer que “isso” presta – ou que não te conhecem de lado nenhum e portanto defensivamente dizem que não prestas não vá o diabo tecê-las! - e os cretinos do costume que deviam estar a criar cópia para a Maria mas que as televisões, revistas e jornais contratam para escreverem cenas que nem eles/as quereriam escrever (pois, contratam putos que as escrevem, por salário mínimo ou menos!)

 

Idiotia institucional. Não há forma de resolver isto. Portugal é intelectualmente caduco, corrupto e falido desde os anos 60, e não falo de antes porque nem quero ir por aí!

 

E, mesmo nesse tempo, os escritores eram tão elaborados, tão cheios de merdices que quem é que os conseguia ler? Estou a falar lá do tempo da “outra senhora” (ou “senhor”) em que, se agora é Oito, então era Oitenta no sentido da parvoíce cultural. Perdia-se o talento pela pedantice e pela intelectualice que mediocrizava toda a gente.

 

Até os Comunistas eram medíocres, na sua tentativa militante, naquele tempo, porque para serem publicados nem sequer podiam ser espontâneos – nem pelo raio do partido, que os aperreava com a porra das “cassetes” e propaganda pós-estalinista e brejneviana que tinha que ser transmitida, em que eles acreditavam pia e militantemente, nem pelo lado do raio do governo da altura, do qual já estamos tão fartos de ouvir dizer o que fez, com a sua PIDE, os seus bufos e a censura :(

 

Mesmo assim, custa-me ter tão presente na memória a jacobinice irresponsável e ignorante da corja que se aproveitou da pseudo-liberdade propagandeada na altura e que libertinou tudo, inclusive o pouco património cultural e linguístico que tínhamos.

 

Fizeram de todos nós palhaços. Os seus líderes Estalinistas – alguns intelectuais também fanáticos e, afirmo, ignorantes – que, ainda por cima usaram a ignorância das pessoas para apenas fazerem valer a sua mensagem de “punho no ar” e as suas palavras de ordem até naquele tempo já vazias. Porque todos os outros eram burros, a mensagem tinha que ser repetida, inculcada nem que fosse a golpe de martelo, nem que se ceifassem os reaccionários (os que mesmo assim não engoliam aquilo, ou por serem ignorantes ao ponto de não adoptarem ou compreenderem nada de “novo”, ou por serem burgueses demais, portanto já “perdidos”).

 

E, nada disso foi de facto diferente do que os Fascistas faziam, com a sua promessa de equalitarismo e “bem para todos”, baseada na ideia de “eu sei mais que eles, portanto sou obrigado a submetê-los, fazendo por eles!”

 

Ou seja, saímos de uma, íamos ficando noutra, e pior. E tudo isto com a “honestidade” de sermos liderados por pessoas que “sabiam” mais que nós. Por favor!!

 

A Democracia protege-os e eles ainda estão no meio de nós. Eu digo: fiquem. Como exemplo daquilo que não queremos - nós, os tipos minoritários como eu - e eles que continuem a vegetar ali nas raias do absurdo e do ridículo, mesmo que os seus dirigentes actuais e vivos se façam “doutores” só para ficarem mais modernos, ou seja, mais à moda – mais burgueses? Já que o seu “Maximus Cassettis” pelo menos fez um esforço e formou-se na prisão, certo? Não deixou de ser “cassete”, mas o homem acreditava mesmo naquilo. E, no tempo dele, estava certo. Agora, já nem se pode acrescentar que seja “anacrónico”. Toda essa mensagem, hoje, é estúpida, insultuosa e ridícula.

 

No meio desta merda toda e isto tudo, ficou a cultura. Quem viesse a Portugal em 76, pensaria que só queríamos a Cicciolina – ou alguma nojenta equivalente e parecida. Note-se, ao menos a referida maluca foi eleita deputada e até tinha algumas ideias :) Ah, e esqueci de mencionar, era “anarca” - se é que ela sabia o que isso seria!!!

 

Os cretinos aqui do nosso lado que a usaram, ou para copiar tristemente e sem qualquer credibilidade, ou para obviamente fazerem todos os outros se sentirem imbecis e apalhaçados com a coisa da senhora, mesmo assim iam ao Condes ou a qualquer dos “piolhos” da cidade de Lisboa – e não sei se nas outras cidades também - ver as porcarias que por lá se exibiam. Mesmo esquecendo que, pelo menos, a puta da Cicciolina era séria. Ou, pelo menos, teve votos!

 

E, entretanto, os nossos jornalistas (Hey! Há excepções!!), nesse tempo, só escreviam sobre sexo feio e sujo, e que ou teríamos putas no poder ou os filhos delas... E os tais gajos (estranhamente, também havia “gajas” - com o devido respeito por ambos os géneros...) que escreviam a sério, passaram à história, ficaram calados e caladas, ou, por tabu, ou medo da merda do PREC, só voltaram a escrever sobre coisas inóquas e sem significado. Ficaram sem tomates, eles, sem clítoris, elas? Apesar da incorrecção anatómica, por favor, vocês percebem o que quero dizer!!

 

Sim, sei que alguns até não eram tão ordinários (ou vulgares) e até faziam parte dessa “classe” de intelectuais esclarecidos que viram o seu mundo ficar super esquisito – imagino eu, esperançado! - e cheio de uns quantos imbecis por aí fora que só diziam disparates, ou, até, os faziam. Nesse tempo, era o jacobinismo, feio e até violento à maneira portuguesa, sem guilhotina porém radical, intemporal, anacrónico, e estúpido à boa maneira dos “brandos costumes”. À boa maneira do “canto à beira mar plantado”. Tretas da merda :(

 

Tudo uma treta de estúpidos que continuo com a esperança de não estarem na altura a pensar nas consequencias que iriam ter para as futuras gerações. Uma cambada de pedrados, ignorantes convencidos, a tentarem “NÃO” ser como os Americanos, mas a copiá-los sem senso ou critério, e a acusarem a CIA de tudo o que lhes acontecia e de todos os males do mundo.

 

Cambada de cretinos e idiotas e irresponsáveis. Quanto mais inteligentes e “cultos”, mais cretinos, diz a minha história e vivência pessoal. Não sei como vos perdoar. E não vou. Só se me pedirem desculpa, e isso, obviamente, não é nem possível nem vai acontecer. Tristeza e vergonha, é o que me sobra sobre a vossa geração. E a intenção firme de que os meus filhos nunca sejam assim, nem venham a ser vítimas das vossas merdas como eu fui!

 

E eu, que gostava de ler, perdi. Perdi tudo. De repente, tudo que se tinha escrito, era “mentira” ou mau, ou, pior, era do “estado novo”. Ou sancionado pelo dito (se fosse publicado naquele tempo, então era “aprovado” por eles, logo não era “original” ou autêntico! Como se eu não pudesse pensar por mim!!).

 

Lembro que, até para ler o Fernando Namora, perguntei ao meu pai se era “normal”, se podia!!! O velhote, calmamente, não comunista mas politicamente correcto, respondeu: “Filho, é médico, é escritor. Escreve bem e vais de certeza gostar. Fala da nossa gente. Mas olha que é gente que nunca foi a África!”

 

Obviamente, sendo o meu pai como era, nunca me explicou o que era ser comunista, e jamais achou que isso era importante relativamente ao Namora. Era Cultura, era Português, estava acima “disso”. Por isso, lá estava na estante.

 

E eu gostei. Li e gostei. Obrigado, Velhote.

 

Mas, mesmo assim, fiquei em limbo. Claro que me lembro de ler alguns autores que me impressionaram e me fizeram ler duas ou mais vezes o seu livro, desses dos antigos! Mas, em alguns casos, tive praticamente que ir para a Universidade, e absorver dicionários, vocabulário fora de uso ou regional, e ainda muito orgulho nacional, para os conseguir sequer entender!

 

O Eça escrevia coisas de cordel. Não? Bem, ele escrevia romances. Sabem? Romances. Linguagem elaborada e parva, à maneira da época. Descrições longas e detalhadas. Coisa de Eça. E outras e outros.

 

Agora, vejo apenas uns idotas e alguns com talento. Os de talento, geralmente são tão experimentais que só gajos como eu os aturam – ou só gajos e gajas que sabem que alguns desses de talento ganharam o Nobel, apesar de serem pessoas execráveis, cretinas e estúpidas – e anacrónicas – como é o caso do imbecil do Saramago. Que aliás escrevia bem, mas que, para não variar, não escrevia da forma que nós todos podemos escrever – ou ler.

 

E os de Talento, também aparecem e passam despercebidos, quase sempre (pelos vistos, tirando o cretino do tal Nobel...).

 

Pelo menos se não escreverem como o imbecil supracitado, conseguiremos ler o que escrevem, Deus-que-ele-não-acreditava-que-existe o tenha - ou o Diabo que o tenha e carregue, e eu suponho que ele também não acreditava nesse ranhoso. Bem, nem eu, e já agora, espero que de facto fosse coerente, o tipo.

 

Mas voltando ao Talento, à vontade de escrever e expressar emoções, ideias, vivências. De contar histórias. Nós, comuns, se quisermos expressar e transmitir ideias e histórias, fá-lo-emos de uma forma natural, certo? Contar histórias é um dom. Como cantar, tocar um instrumento e fazer música, fazer teatro. Ou pintar. Ou escrever.

 

A minha maior surpresa sobre os escritores portugueses, porém, não é nada disto. :) Sim, porque tudo isto que já falei não é pessoal.

 

Cresci numa família tradicional do Estado Novo, sem surpresas, espero, a julgar pelo meu discurso até agora, eu próprio anacrónico por ter sido o último. Quer isto dizer quer fui o puto que veio 15 anos depois do meu irmão e 13 anos depois da minha irmã. Eles são meus padrinhos de baptizado. Enfim, que remédio, até eu acho que isso seria uma escolha natural para os meus velhos, na altura: até tive que ser baptizado na Missão, que para mim ainda é a igreja isolada lá no mato onde havia uma série de gajos de batina. Aprendi, em tempo, que eram padres, e que alguns falavam italiano, embora o tentassem disfarçar e fingir que falavam a língua de Camões, a única oficialmente aceite lá no sítio :)

 

Não me pergutem, eu não me lembro dos pormenores. Só me importa agora para esta conversa (já que aceito comentários, é uma conversa e não um monólogo), que eu vivia rodeado de pessoas que não falavam português, ou porque falavam um dialecto ou outra língua, e que cresci a ler livros de cordel de um autor que não era português: um tal de Emilio Salgari. Sandokan e cenas assim. Já nem me preocupo com a questão de se “mal” ou “bem” traduzido. E até havia o Asterix e o Tim-Tim, na banda desenhada, mas quando era texto eu lia mesmo o Salgari.

 

Mas enfim, então qual seria a surpresa? Pois, o facto de que quase (quase!) tudo o que eu li quando era miudo, e que eu me lembre ainda, não foi escrito por portugueses. Tirando Irene Lisboa e os seus “livros” para miúdos, que fui obrigado a ler e em que os personagens se chamavam “Senhor Doutor Isto” ou “Senhora Dona Maria Aquilo”. Tirando esses, eu lembro-me de Enid Blyton. Ou do parvo do Salgari. Ou até da Agatha Christie, de cujo nome só me lembro desse tempo por causa das capas dos livros que a minha irmã lia.

 

Mesmo assim, o meu velho tinha lá na estante, entre uns quantos de vários autores estrangeiros como Lenine, Karl Marx, Henry Miller ou Hemingway, um livreco com um titulo sugestivo: “ A selva”. A capa, essa era sugestiva também, parecia a capa dos livros de cordel a que eu tinha acesso, e eu li aquilo.

 

Completamente convencido de que se tratava dum “Salgari”, guardei-o exactamente na mesma prateleira onde guardava as tretas do dito. Só anos depois vi que o autor daquela cena era Ferreira de Castro, e, aliás, foi só quando li propaganda comunista acerca do homem num “Avante”, perdido numa mesa de centro na Junta de Freguesia do Laranjeiro em Almada. Para chatear, e esquecido de semelhante livro, no Canadá ainda tive que levar com um amigo, comunista de gema, sindicalista lá na “Union”, e pouco literato como de costume (tinha quarta classe e era operário), que quando viu tal autor na minha estante, assumiu imediatamente que eu era comunista.

 

Será que o Ferreira de Castro era mesmo comunista, o gajo que voltou teso a Portugal e gastou o pouco que tinha numa pensão (uma Pensão=lugar onde se dorme) só para engatar uma gaja? Esse livro dele, apesar de intenso e directo, nao me conseguiu levar a ler mais nada dele. Desculpem. Mas, pelos vistos, li algo do individuo. E guardei na minha prateleira dedicada ao Salgari. Não é insulto, é o que senti.

 

Longe da esperança de que alguma vez me cruzaria com algo que tivesse um significado especial, em termos de literatura, e que não fosse algo completamente chato, encontrei na estante do meu pai um livro, esfarrapado mas ainda legível, intitulado “25a Hora”. Ou coisa assim. Sem surpresa, era escrito por um estrangeiro qualquer e que eu não conhecia, com um nome ainda mais estranho mas que soava a “Jorge”. O tipo era romeno, e, claro, eu ainda não era capaz de o reconhecer. Mas li, sem interrupção o livro que por ser velho e barato, ainda por cima se desfazia mas minhas mãos.

 

Surpreendentemente, parecia que estava escrito em português, originalmente. Bom português. Com 14 anos, que foi quando o li, dei-me ao trabalho de ver quem teria sido o tradutor já que eu tinha percebido que aquilo tinha sido escrito por um estrangeiro.

 

Foi assim que li, com gáudio, que quem tinha traduzido se chamava Vitorino Nemésio. Impressionado outra vez. Não pelo excelso bicharoco, o tal narigudo açoriano, fanhoso e distinto, que participava em programas televisivos da “outra senhora” (que eu nunca tinha visto!), que me tinha impressionado já com coisas da escola, mas pela qualidade do português daquela tradução. O homem tinha feito um esforço e tinha conseguido.

 

A ideia do escritor português, claro, não está perdida. Eu acredito. Tirando os que são “publicados”, que como disse, se submetem à corja, ainda temos a Internet. Mesmo assim, eis que há alguns exemplos de coisas boas... ainda assim, pela “mão” de alguém:

 

Há uns bons anos atrás, em Toronto, que é uma cidade muito mais interessante que Lisboa e muito menos “velha”, comprei no “Portuguese Book Store” um livro para miúdos. O meu amigo José Tomás, segundo me disseram herdeiro do “velho Tomás” que foi quem fundou aquela livraria, foi a quem fui pedir para mo vender. Creio que sua irmã, antipática, abrupta e reservada, sem palavras extra para quem não conhecesse pessoalmente, foi quem me levou lá “atrás” onde o José se enfiava com o seu computador e sonhos. E ele, pai de miúdos e miúdas como eu, simplesmente, recomendou um livro, distraidamente e sem compromisso, como lhe era habitual. E eu comprei-o, entre conversas de onde é que iríamos fazer a nossa “festa” e beberete de casais suburbanos nesse fim de semana.

 

Era uma prenda para a minha miúda de 9 anos que me estava a visitar. A prenda de Natal, que só eu, o pai, compraria. Ou seja, a minha esposa dar-lhe-ia muitas prendas, e a única que eu “podia” dar era aquela. Minha “esposa”, neste caso, define a também pessoa que ia ter que “aturar” a minha filha, naquele Natal. E era, mesmo, casada comigo, e até já tínhamos um filho.

 

Em português, o livro atraiu-me porque parecia algo que a Enid Blyton escreveria. Nem vi quem era a autora, era uma mulher, li o resumo e era fixe, e a minha filha ficou agarrada àquele livro e depois ainda tive que lhe comprar mais um. Na mesma semana. Custou-me uns 10 Dólares canadianos, o primeiro, já não me lembro de quanto o segundo. Surpreendentemente, o preço em Escudos era mais elevado, e disso eu lembro-me. Muito mais elevado. Tipo, triplo.

 

Abençoada a autora daquele livro, a miúda começou, e continuou a ler!

 

A autora do dito veio a ser ministra da educação. Em Portugal. Segundo sei, quando ela escreveu aquele livro, era professora do secundário. Ou coisa assim. Fiquei, e ainda estou, impressionado.

 

Isabel Alçada, porém, já fora esta conversa, é uma pessoa que admiro, nem que seja pelo episódio da minha filha (agora a tirar um mestrado em Literatura Comparada). Aliás, a miúda nem o reconhece e já nem se lembra que o primeiro livro, e em português, fui eu que lho dei, ou que era da Isabel Alçada, agora pessoa “non-gratta” dentro das suas ideias “Bloquistas”, esquerdistas e radicais de miúda sem experiencia. E, ainda por cima, nem foi comprado em Portugal!! LOL!

 

Tenho muitas notas destas a partilhar. Como a Margarida Rebelo Pinto e a sua extraordinária capacidade de nos fazer sentir que tudo o que escrevamos, na primeira pessoa (O que É difícil!), só seria pelágio, tão intensa e pessoal ela consegue fazer-se, como narradora! Aponto-vos, pelo menos, o seu “Português Suave”.

 

De novo, e para lembrar sem desmérito à autora, foi o meu favorito Alçada Batista, o consagrado Alçada Batista, que a apresentou... Como sempre, alguém de talento, a ter que ser “apresentada”, não só pelo seu talento e por escolha e “promoção” dos/das editores/as, mas porque alguém famoso a “levou lá”. Desculpem, a Margarida Rebelo Pinto não precisava disso! Ela É boa escritora!! Fantástica e original, a mulher, sem “experimentalismos” de discurso, nem compromissos de conivência social, consegue pôr-nos na pele dos seus personagens, quando não na dela própria!

 

Não preciso de falar mais sobre isto. Em Portugal é preciso cunhas. De uma forma ou de outra, nenhum escritor “novo” português se deveria sentir diminuído por ter sido apresentado por uma celebridade ou coisa assim. Ou, mesmo sendo consagrado, por ter que ir mendigar entrevistas na TVI e na SIC, em que o apresentador autoriza que mencione o seu livro, fugazmente, quase furtivamente às vezes, e mesmo antes do intervalo de quinze minutos para “comerciais”...!!! As da “2”, as entrevistas, já se sabe que, pelo menos, não são tão comprometidas assim. Como eu disse, reconheço as excepções, pelo menos algumas, já que não compreendo outras. Coma as da "3", na rádio, mas nunca se sabe...

 

Os editores, esses, é que se deviam esconder. Esses é que deviam chorar de vergonha e nunca mencionar nos seus cartões de visita que são editores, e estou a falar dos “júniores” que ainda podem ter carreira, se é que existem. Aos outros, nem consigo atribuir-lhes o E maiúsculo. São mesmo uma vergonha e uns vendidos. E nem sequer os acho bons (ou boas) business-people, uma vez que não arriscam e não fazem nada. Nada. Nem de facto promovem os autores. E, pelo que sei, nem promovem os próprios livros que publicam!! Acham normal?

 

Claro que deve haver excepções. Essa é a regra! Mas não é isso que me têm dito, nem o que tenho experimentado.

 

Fico, pelo menos, com uma mensagem para os pseudo/pedanto/intelectuais portugueses: Parvos! Especialmente se são “editores”. Transformem-se em gente!

 

Aos outros, que até gostam de “escrever”, lembro-vos do facto óbvio: na Internet, nos Blogs, os “Editores” são mesmo quem nos Lê. Não dá dinheiro, não nos iludamos, mas pelo menos alguém nos lerá e fará críticas mesmo honestas.

 

Vosso, sempre,

 

-Sérgio

 

 

 PS: Hoje é o dia de anos do meu irmão, Humberto de Sousa. Este post, porém, NÃO marca a data. Sinto ainda demasiada tristeza pela perda, demasiada confusão, e nunca iria marcar esta data com um "artigo" destes. Aliás, este artigo já foi escrito há dias e só hoje o publico. Se me inspirar devidamente e com a dignidade que meu irmão me merece, ainda hoje dele falarei. Mas não posso prometer :( Não posso :( Ainda só tenho saudades dele. Muitas!

 

 

sinto-me: Esquisito, estranho, insone...
publicado por Sergio às 20:30
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