Quinta-feira, 27 de Abril de 2006

Londres, ali ao lado, a 57 euros...


Vamos lá neste fim de semana? Custa o mesmo que um bom jantar no Bachus, ou uma loucura de marisco no Ramiro. Fácil, huh?

A última vez que lá estive, foi de passagem, como tantas vezes me acontece. Tive que aturar o escrutínio de um segurança de aeroporto que, à porta do avião para Toronto, me notou no meio da multidão. A técnica usada é a de reparar em quem é diferente, um motivo de suspeita: é a minoria no meio da multidão!

É assim: eu estava num voo da imperial British Airways, com destino à cidade que os americanos queimaram já lá vão muitas, muitas luas, mas era o único cidadão baixinho, moreno e com a barba por fazer. Assim, como devm calcular, era fácil para toda a gente notar-me no meio da sala de embarque de um 747, a preparar-se para transportar todos esses irlandeses, escoceces e outros descendentes, aloirados e de olhos mais claros, que iam de regresso ou visitar as suas familias na velha cidade do Upper Canada. Claro, uma vez que eu meço pr'ái umas 2 polegadas menos que a média daquele grupo, eu seria notado.

Assim, e sem nenhuma cerimónia desnecessária, com o seu irritante e pomposo sotaque british, o energúmeno insistiu em me chatear à porta do avião e em me fazer perguntas indiscretas à frente de toda a gente. "Então você como é que vai ser aceite no Canadá?", finalmente perguntou-me. Entre um sorriso e um ar inequívoquo de que eu, se pudesse, lhe arrancava a garganta à dentada, respondi-lhe:

"Bem, os canadianos nunca me recusaram ou suspeitaram de mim e, como já disse umas três vezes, eu resido lá há uns anos. Aliás, não me surpreende que eles não me recusem entrada: eu pago impostos, e não são poucos. Deve ser por isso que, apesar de eu ter um passaporte europeu, você me estã a chatear, não? Porque não pago impostos aqui?... Bem, não será por isso que eu quero mesmo é regressar, para sentir que sou bem tratado??? Deve ser para não ter que aturar isto, e acho que nunca mais escolho Londres como aeroporto de passagem..."

Note-se, tudo isto com os gestos naturais de um "south-european" e o tom de voz a acompanhar.

O animal deixou-me entrar logo de seguida, sem mais hesitações. Foi como se de um interruptor se tratasse, agora é escuro, click, agora é claro. Cabisbaixo, o sorriso perdido, lá voltei a entrar na fila à porta do avião, quase sem resistir a olhar por cima do ombro, agora consciente do quão diferente eu era do resto das pessoas.

Fiquei envergonhado, porque tudo se passara à frente dos outros passageiros, mas inchado e convencido de que tinha chegado para ele, estúpido brit. Porém, quase toda a viagem o episódio me vinha à mente, como sempre nos recorrem e revivemos os episódios algo traumáticos. Com um leve sorriso, meio convencido, sempre deixava para trás a coisa, certo de que tinha sido a minha esperteza e verve que o tinha posto de lado.

Enfim, tudo mudou logo que vi um documentário televisivo em que tudo se explicou. Afinal, aquilo não passa de uma técnica. Uma técnica de stress. Aparentemente, se eu não tivesse ficado irritado, e quase insultado o cevado, eu teria sido considerado perigoso. Se eu me tivesse aguentado e, sorrindo sempre, fosse melífluamente repondendo a tudo de forma civilizada, tal teria sido indicação inequívoqua de que aquele avião explodiria, comigo lá dentro, perto ou não de Lockerbie.

Deve ser por isso que eles por lá matam, a tiro, brasileiros inocentes porque são mais escuros que eles e levam mochilas ás costas para o Tube. Esse rapaz, em vez de inocentemente estar completamente alheio ao que se passava, deveria ter é mostrado inequivocamente aos polícias, preferívelmente antes de o matarem, que estava já muito irritado com eles. Teriam deixado o moço em paz. Uns insultozinhos bem aplicados teriam talvez resultado. Pior é que se calhar ele nem falava tão bem inglês assim...

Agora, deixem-me perguntar: porque acham que a British baixou o preço das passagens? Não será porque já ningém quer lá ir e eles, por contrato, têm que fazer o voo na mesma, para manterem a concessão (o "slot") de Lisboa?? Não deve ser porque os lisboetas preferem is comer marisco a Londres...

Tenho outros episódios para contar, claro, mas isso fica para outras insónias... Afinal acho que nem todas as minhas insónias se relacionam com Portugal. O denominador comum deve ser mais Europeu, mesmo.
sinto-me:
publicado por Sergio às 23:44
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