Domingo, 23 de Abril de 2006

Nostalgias

Ando assim com umas nostalgias que até parecem despropositadas. Esta coisa de andar sempre a mudar de poiso, se tem os seus atractivos e vantagens, sem dúvida que encerra consequencias por vezes insuspeitadas e inesperadas. Uma delas é essa nostalgia despropositada a causar nós de estômago quando nos lembramos de momentos fugazes e impossíveis de reviver.

Enfim, tenho saudades. Nem sempre se traduzem em saudades de coisas pálpáveis ou de pessoas, mas sim de estados de espírito, sensações, conforto em estar de uma certa forma. Claro que às vezes é relacionado com pessoas ou situações. Mas a nostalgia, realmente, é mais abstracta do que isso, é mais incorpórea, por isso algo inexplicável e dificil de traduzir em palavras.

Mas porque será que, agora que estou aqui, já nada sinto sobre este lugar? Quando estava longe, só me lembrava de coisas engraçadas e agradáveis que passei aqui (não muito frequentes), ou, ao inverso, das totalmente inesquecíveis de tão execráveis (muito mais prevalentes!). Sempre em extremos, sempre releguei para o oblívio a pura e simples rotina, aborrecida e insidiosa que, afinal, sempre foi minha companhia por cá.

Assim, decerto, esqueço-me agora dos pontos mortos, os marasmos que sem dúvida atravessei quando estava do outro lado do Atlântico. Só que, realmente, parece-me que foi por lá que tive mais experiencias, mais frequentes, mais intensas e mais agradáveis. Será mesmo? Afinal porque insistia eu em ir ao Sousa's todas as quintas feiras para o bouffet português, ou ao Downtown aos sabados à tarde, para ver e falar com os outros lusos? Não era porque sentia saudades de estar aqui mesmo onde me encontro agora?

Agora só vejo mesmo o lado escuro disto tudo, refilo com o trânsito irracional e os maus modos dos cidadãos, detesto a comida por causa do preço exagerado e por me cobrarem o pão, e sinto-me ultrajado por não haver um unico singles-bar para tipos da minha idade em Lisboa. Nem um, afiançam-me! E mais, sempre que menciono isso, vejo-me invariávelmente obrigado a explicar, com mais ou menos paciencia, que não, não é bares de alterna ou de escorts que se trata, nem bares de strip! E não, esses lugares que me apontam no Bairro Alto também não qualificam para a designação.

Singles-bar é onde as pessoas normais, solteiras, provávelmente profissionais, necessáriamente solitárias, se reunem nas grandes cidades. É o tomar um copo e conversar com estranhos, que eventualmente podem deixar de o ser, tudo muito civilizado e normal, mesmo com uma partida de snooker pelo meio. Num desses bares a gente pode entrar sozinho, tomar um copo, e não ser obrigado a falar exclusivamente com o barman, se este estiver na disposição... se bem que, realmente, sempre me foi dificil sequer iniciar uma conversa com os barmen ou barmaiden aqui, tão carrancudos se mostram, tanta questão fazem em não "dar cufia".

Afinal tinha-me era esquecido de como funcionam as coisas por cá e os seis meses que já lá vão ainda não diluiram a estranheza e a "emigrantisse". As melhoras são notáveis, porém, pois já nao digo disparates do tipo "sure que sim" ou "telefono-te para trás" :-D Se bem que eu nunca fui dos piores, nunca adoptei palavras do tipo "buldingo" ou "garbicho", LOL!

O giro é que continuo a apanhar o avião aos fins de semana, só alguns, quando quero jantar em boa companhia ou simplesmente ir a um bar onde encontro outros (e outras) nostálgicos solitários, mas divertidos, comunicativos e solidários. Ou ir mergulhar em águas turvas, quentes, no meio das árvores e com uma cascata a cair-nos na cabeça. Duas horas sobre o Atlântico e não é na América. E fala-se português... ok, uma espécie de português, mas bem inteligível para mim :D

Mas a sério, ando a ficar farto de aeroportos. Já ultrapassei a fase de blasé, agora ja é mesmo só annoyance. Era bem melhor que aqui tudo simplesmente fosse igual. Um destes dias, vou é mas é começar a juntar dinheiro e abrir um dos tais "singles-bars". Receio apenas é que me torne no seu maior consumidor, senão o único... E depois, só para recuperar o investimento (e as perdas), contrariadamente ainda terei que o vender a um dono de strip joints... Parece que esses, esses proliferam e prosperam. Porque será???


sinto-me: esquisito
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publicado por Sergio às 21:24
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1 comentário:
De StrangeBlogger a 24 de Abril de 2006 às 09:35
Pois é meu bom amigo. Já falámos sobre isto e de facto não há nada que sequer se qualifique. admito que não é nada facil a alguém que apenas quer trocar dois dedos de conversa com um anónimo. Mas olha quem sabe, um "joint" desses até podia ser uma ideia a pensar. :D

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