Sexta-feira, 17 de Março de 2006

Encruzilhadas



Não sei bem porque hei-de passar tanto tempo a pensar. As encruzilhadas
da vida repetem-se, as hesitações já não são novas, mas nunca deixo de
me surpreender com elas, simultâneamente com uma sensação de dejá vu.
Aliás, ultimamente tudo me parece envolto numa aura, numa espécie de
neblina, como se visse a minha vida passar-me pela frente, e ao lado,
vista pelas vidraças de uma janela antiga e rústica, embaciadas pela
idade.



Até o que escrevo parece plágio. Só não sei se me plagio a mim mesmo,
ou se apenas tudo o que penso, escrevo e digo apenas se trata de um eco
de algo que li, ouvi ou vi. Ou ambas as coisas.



Ainda sinto alguma familiaridade com as coisas, quando estou no
aeroporto. Num qualquer aeroporto. Como se a minha vida fizesse pausas,
nas salas de embarque, para rever-se e para avaliar a realidade. Tento
sempre comprar um daqueles livros, em inglês, que se começam a ler na
viagem e que depois nunca mais se tem tempo para acabar e acabam assim
por ficar esquecidos na estante lá em casa ou no aparador do quarto de
um hotel qualquer, a que nunca mais regressaremos. Compro o livro e
depois sento-me ali, parado, absorto, a olhar para os outros sem os
ver, só a pensar na minha vida. É sempre assim, o livro fica aberto,
esquecido, apesar de eu ir lendo repetidamente a mesma frase do mesmo
capitulo, sem a absorver.



Nunca li Kafka, aliás quando ainda eram importantes essas coisas, eu
pensava que o meu tempo podia ser melhor empregue se dedicado a outras
actividades. Mas mesmo assim, ouvi dizer que aquilo que estou a
descrever, a forma como me sinto, é meio surreal, quiçá "kafkiana".
Ficarei para sempre na dúvida, sempre a hesitar se tal pode ser ou não
o caso: nunca lerei Kafka, voluntáriamente. Também me apontaram -
amigos, amigos! - que o que eu estou a atravessar não passa de uma
crise existencial, uma estupidez qualquer que parece ser comum aos
tipos que atingem esta idade. Ah!, parece até que comparam o que sinto
com uma menopausa, uma andropausa na realidade. Será?



Essas filosofias ultrapassam-me completamente. Quero lá saber dessas
coisas, e a explicação intelectualizada não me altera nem o estado de
espírito nem as expectativas. Alguns dos sintomas que as pessoas, no
seu lugar-comum, apontam como característica dessa "idade", estão
ausentes. Ou seria melhor eu dizer "ainda estão ausentes"? Assusta-me
sequer pensar nisso.



E, afinal, que esperava eu da vida? Mais prosaico do que se possa
pensar, eu não queria mais do que ter tido uma vida vulgar, ser mais um
que se perde numa multidão anónima, mediano mas remediado, medíocre mas
com futuro assegurado. Não compliquemos, eu queria era uma casa na
praia, um cão, e uma reforma. Dispensava o carro, levaria comigo o
sempiterno laptop e manteria uma colecção de CDs de musica que tiro da
net. E que lá não faltem os meus favoritos Bon Jovi e Def Lepard. Vá
lá, eu sei que as letras do Jon são perfeitamente estapafúrdias, mas
que aquela mistela sonora me soa bem, soa... Enfim, eu até pensei que
essa casinha, ou bungalow na praia, podia ser numa Ilha, assim como a
Jamaica, ou uma quaquer em Cabo Verde.






Isso não é mediano!, acusa-me um amigo. Bah, é sim. É o que eu queria e
não é nada de especial. Aliás, é isso ou a casa na periferia, dois
carros á porta e uma vida cujo ciclo se eterniza nos movimentos de
casa-trabalho-casa durante a semana e
passeio-dos-tristes-e-pastéis-de-nata aos fins de semana. Confesso,
trocava a minha vida de agora por isso mesmo, caso a casa na praia
ainda não fosse possivel. Tentei viver numa ilha, já há uns tempos, e
gostei. Não me é indiferente, ainda, o viver num  meio pequeno.
Claro, cínicamente sempre refiro que tem que haver lá um hospital, um
supermercado decente e, de preferencia, TV cabo e internet. Claro :-)



Mas, de facto já começo a ficar cansado. Já era para eu ser um
respeitável indivíduo, daqueles que se perdem na multidão, que caminham
incógnitos e felizes para as suas reformas e que até já compraram a
casa de campo. Eu, mesmo assim, perco-me na multidão, nem me encontram
mesmo que procurem como procuram o Wally. Só que estou mesmo perdido,
contrariamente ao tal tipo eminentemente pardo. Perdido e farto.



Ja nem procuro romance, já não me atrai a aventura, já me enfadam as
viagens e as outras paragens. Quero ser médio, quero ter uma vida
medíocre e chata! Quero fazer rewind ao filme da minha vida e suprimir
aquelas sequencias em que as coisas sempre enveredaram pelo lado mais
desafiador, mais aventureiro. Quero ter nascido numa aldeia qualquer em
Portugal, ir para a escola, para a mesma escola, até ao secundário, ver
na minha turma do 12º ano os mesmos putos que brincaram comigo na
classe infantil. Quero casar-me aos vinte e poucos anos com a miuda com
quem brinquei aos médicos e enfermeiras quando tinha 11, e quero ter
bebés com ela e vê-los crescer, ser adolescentes e tornarem-se em
cidadãos medianos e com reformas asseguradas, também. Queria ter
acabado o meu curso, ingressado numa qualquer empresa onde pardamente
passo 30 anos a fazer a mesma coisa e a ser cumprimentado de manhã pelo
mesmo continuo que se reforma 5 anos antes de mim. Quero usar fatos
azuis e gravatas de riscas, e fazer férias no algarve todos os anos,
onde deixaria o meu subsidio de férias inteiro no pagamento da renda de
15 dias de um apartamento que partilharia com a familia do meu vizinho.



Enfim, acabei por fazer quase tudo isso. O intervalo de tempo das
ocorrencias, o ritmo, é que não foi exactamente aquele a que muitos
estão habituados... Ah!, e também há outro detalhe: não tenho amigos de
infância.



É tarde para isso tudo já. O meu destino, aqui visto de forma disfusa,
nebulosa, parece ainda não estar traçado definitivamente, mas o meu
passado dita que não seja assim tão fácil. Espera-me o atravessar oito
fusos e instalar-me numa casa cor-de-rosa e soalheira, e voltar a ir ao
buffet do Sousa às terças e quintas. Lá, pelo menos, ouvirei falar
português. E, concordemos, há um je-ne-sais-quoi nessa coisa de dar um
mergulho no Pacífico, para quem nasceu numa terra que nem vem no mapa e
que está a dois poeirentos dias de carro da cidade mais próxima.



É isso, ou sujeito-me àqueles invernos malucos lá do grande norte
branco. Aí, pelo menos, são menos fusos horários e sempre há aquele
outono que me deixa nostálgico mas descontraído, distraído a ver os
esquilos a aprovisionarem. Afinal, sempre há qualquer coisa a
vislumbrar-se para lá das vidraças foscas. Nem que seja tudo branco.
:-) Passarei as minhas insónias à janela, absorto na paisagem prateada,
beberricando um conhaque e fumando cigarros portugueses.



Os grandes nós da minha vida parecem estar indelévelmente atados no mês
de Abril, nao sei porquê. Mais uma estupidez desse destino que se me
impõe? Ou será que é verdade que nós traçamos o nosso próprio destino?
Eu tenho sérias dúvidas acerca desta ultima questão, da mesma forma que
admito a sua possibilidade. A California não devia ser o meu destino,
mas abarco-o alegremente, se assim vier a acontecer. Alegremente,
depois de me ter passado o pessimismo, claro.



Resta-me, então, apenas brindar ao futuro e esperá-lo serenamente após
passar a resaca. É um traço conhecido da minha personalidade que eu
fico pessimista quando durmo pouco. Se acrescentarmos que isso, o
dormir pouco, ocorre com mais frequencia quando se aproximam estas
encruzilhadas, então o resultado da equação revela a forma cinzenta
como vejo tudo o que se passa comigo nestas alturas. Não, não é
depressão: é feitio, mesmo. E insónia.



O dejá vu continua, mas combato-o estóicamente servindo-me de uma boa
dose de scotch. No brinde, ergo o meu copo, tilintando o gelo, e repito
as palavras do meu amigo Edgar Fuentes, o médico fugido da Guatemala
que hoje é capataz de uma fábrica de pláticos: "Salud, diñero y amor!".
E acrescento, já da minha lavra: "e um pouco de sexo, sexo também é
necessário". :-)


sinto-me: capaz de uma...
publicado por Sergio às 19:54
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