Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2006

O Privilégio do Ofídeo...


...Que muda de pele sempre que o universo lhe dita o seu crescimento, faz do Ofídio , ofensivo e asqueroso, rastejante, serpenteante, visitar-nos menos nos nossos pesadelos?

Sem patas para andar nem inteligência que se possa nomear, detentor de grande poder sobre o nosso imaginário, povoando medos ou fascinando pelo perigo, quiçá imaginado e não real, o Ofídio permanece incólume depois de mudar a pele e renasce com brilho, elegância e aparentemente intocado sempre que o faz. E fascina de novo, as jóias das suas novas escamas a reflectirem miríades de estrelas, ou apenas o Sol, e que hipnoticamente nos fazem pensar no milagre, na pura regénese que de um momento para o outro se opera á frente dos nossos pestanejantes olhos, ás vezes indiferentes, por vezes enganados num "tromp d'oeil" involuntário e inconsciente, tantas vezes incrédulos, tantas vezes em fúria - ou inveja - também...

Para trás deixa, o Ofídio , apenas uma manga esbranquiçada, efémera, etérea, que a Terra reabsorverá. Uma ténue memória do seu passado, que a nossa Terra - que com ele partilhamos - compadecida e agradecida, fará ser parte de si mesma, afinal parte de nós também.



Conhecemo-lo como Serpente, Cobra, Víbora. Mas é Ofídio , seja ele macho ou fêmea. Está na nossa religião, est á no nosso fascínio e nos nossos medos, está nos nossos terrores - está na nossa curiosidade, mórbida ou científica. Ás vezes é venenoso, outras simplesmente vítima de mal entendidos - outras, até, apenas sobrevivente.

Representa símbolos poderosos, vive na história ou nas nossas caves, quem sabe nos entra pelas janelas entreabertas á noite, pela calada do nosso sono tranquilo? Quem sabe nos espreita, também, nas nossas vigílias, desconfiado e preparado para atacar, porque convencido que assim sobreviverá porque convencido que o destruiremos à vista, porque correcta a instintivamente pronto para nos destruir antes que o ataquemos?

Existe, e faz parte de nós. E tem um privilégio: renasce na sua mudança de pele, sobrevive ao seu crescimento, e permanece, e fica, e está por aí. Nos nossos pesadelos. E na nossa realidade. Existe.

Existe nos nossos colegas, nos nossos amigos até, em quem amamos profundamente. Queremos que os nossos inimigos o sejam, tantas vezes o desprezamos e dele fazemos um símbolo, um exemplo. Existe em nós.

Mas tem um privilégio. Que nem todos temos, e que nos não é oferecido ou garantido. O privilégio de mudar de pele, e brilhar de novo. O privilégio de voltar a reflectir a Lua, ou o Sol, as Estrelas até, e de voltar, depois de crescer mais um pouco, e ser renovado e visto como algo diferente. E ninguém lhe pode tirar isso. Ninguém. Porque é um privilégio só dele, não uma prerrogativa, apenas algo a que ele tem direito, e que nem escolheu, que nem sabe que tem. Um privilégio, apenas. Indiscutível e irrefutável. E, aceitemos, inimitável.

Admiremos o Ofídeo. Merece.
sinto-me: ... como se calcula...
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publicado por Sergio às 04:09
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1 comentário:
De lantire a 17 de Dezembro de 2006 às 14:16
Nem comento....

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