... mas este blog é sobre insónias. é pessoal, é sobre o que me tira o sono. Desculpem, pensei que alguém me achasse suficientemente provocador para, pelo menos, discordar e comentar...
O pedido de desculpas acima, é um acto (um "ato"?) contritivo, respeitante a quem me lê, se é que existe alguém.
Portanto, a todos os ofendidos pelas minha opiniões, interpretações, emoções e outras balelas relacionadas com as minhas insónias, peço perdão. Especialmente se não comuniquei devida e claramente que este era um blog pessoal e em que eu, com muito pudor (acreditem!), falo das cenas que me tiram o sono. E que, claro, espero que me digam que não estou só ou que tudo o que digo não passam de balelas.
Nem um insulto, nem uma contradição, nem uma reclamação eu encontro na minha área de comentários. Nem sequer um daqueles posts "spam" pr'os sites de putas. Nada! Esmero-me, esforço-me!, para que as minhas provocaçõse "atinjam" alguém.
Nada. Silêncio.
Insónia é assim?
Pois, deve ser mesmo. Tudo o que me cruza a estúpida massa cinza, e que eu, de quando em vez e raramente, matraqueio no meu teclado aqui, ficará sempre nisso mesmo: insone e solitário.
Nem uma das minhas estupidezes ou provocações até hoje gerou uma reacção que não fosse de alguém próximo e solidário comigo. Medo? Pudor? ...
Vejamos, vejamos :)
Ciao,
-Sergio
PS: Claro que dispenso o "spam" ! :S Ah! e claro que aprecio os comentários solidários. Só esperava também um pouco dos "outros".
“entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem”
ou, mais aproximadamente
“pluralitas non est ponenda sine necessitate”
Não sei bem porquê, deu-me para filosofar acerca desta minha extraordinária e frustrante última experiência de trabalho.
Julgo que, impotente para fazer outra coisa, só me restava filosofar para que não fosse inexoravelmente engolido pela irritação com o que me foi imposto e o inevitável desprezo por quem o estava a impor.
Note-se, não desprezo o homem pela sua óbvia estultícia relativamente a necessidades de facto reais do projecto, nem pelo facto de ser também óbvia a sua incompetência técnica, habilmente disfarçada com o recurso fácil a técnicas de rufia de escola secundária complementadas com esta ou aquela referencia a coisas que lera em livros e que de facto estavam certas – o que, portanto, poderia até comprovar a sua relativa capacidade e conhecimento.
Não quero mentir, fiquei enervado e até chocado daquela vez, logo ao principio, em que ele insistiu que o MQSeries da IBM conseguia manter os “clients” actualizados “automaticamente” sem que estes tivessem que “pedir” nada ao “servidor”. Tipo, o “cliente” na China e o “servidor” em Portugal, o “cliente” ia “saber” tudo o que o “servidor” quisesse, instantaneamente, sem esforço, sem pedir nada... Podemos simular isso, sim, mas será sempre uma abstracção, software que o faz “parecer” assim... Não maço com isto, não vou fazer nenhum ensaio técnico. (Para quem esteja interessado, farei em breve um debriefing mais técnico sobre este projecto no meu blog profissional: blog.serso.com)
Mas o argumento é simples: é cliente-servidor, estão separados fisicamente, portanto claro que o “cliente” tem que ir “ler” ao “servidor”, o qual é “passivo” (relativamente), pois limita-se a publicar uma mensagem que quem quer pode ir lá ler – ou quem souber onde está e como se lê. Não é pelo facto do Telejornal ir para o ar todos os dias à mesma hora, no mesmo canal que TODOS nós o vemos e ficamos instantaneamente cientes das notícias: apenas aqueles que o sintonizam, certo? Se lá estivéssemos no estúdio, sentados numa plateia a ver e ouvir os apresentadores, portanto dentro do “servidor”, talvez não tivéssemos remédio, mas estando em casa, só mesmo usando tecnologia, a TV e os televisores (não, não são a mesma coisa! ) e fazendo activamente algo por isso, tal como ligar e sintonizar o canal apropriado.
Logo nessa primeira discussão, eu devia ter ficado com a certeza: eu estava a lidar com um mentecapto :( Infelizmente, não era esse o caso. Era bem mais que isso. Era, vim a ter o desconforto de descobrir, um malcriado, sem educação e sem escrúpulos que se vissem, pelo menos sem aqueles que contam e que não são só para “mostrar” que se têm quando se torna conveniente à frente de terceiros. Um manipulador barato, um tipo cujo sucesso na empresa como "chefe de projecto" posso apenas atribuir a sua verdadeira capacidade de manipular as circunstancias e ao seu próprio Chefe. Este último, um personagem inteligente e humano, assoberbado de trabalho e correctamente a delegar quando pode e deve, e assim necessariamente confiante de que as “coisas” estão a andar bem.
Enfim, talento ao tipo não lhe falta, assim à moda do Sr. Ripley. Mais um dos tais, nesta rede corporativa que tenho tido o desprazer de ter que aturar desde que voltei a Portugal.
Felizmente, há excepções e eu encontrei vários chefes que não eram assim. O que me leva à questão, que me ponho a mim mesmo: porque que raio não faço eu mais posts sobre esses, os “bons”? Enfim, penso que porque os outros nos deixam sempre uma sensação mais pungente, assim tipo o cheiro das lixeiras ou das morgues. Leva-se o cheiro connosco, mesmo depois de já nem haver um átomo do dito no ar. Perdura por horas ou dias, quando é mesmo mauzinho, numa memória quase indistinta da sensação física real. No caso do tipo de que falo, como de alguns outros, não são apenas horas o tempo necessário para se dissipar o miasma. É muito mais tempo. Às vezes, fica e não passa. Neste caso, penso que passará e em breve será apenas uma memória desagradável.
Mas que tem isto a haver com a rasoura de Occam? (1) Diz-se que o frade postulou o principio de que “a explicação mais simples é provavelmente a correcta”. Pelo menos, essa é a ideia generalizada sobre o principio em causa, mas eu sei que não é bem assim, embora se aproxime. A ideia deve centrar-se mais à volta do conceito de que “não é necessário complicar, ENQUANTO a explicação mais simples servir”, ou, como eu extrapolo, numa ideia aliás cara aos engenheiros, de que geralmente a solução mais simples é a mais adequada, económica e duradoura.
A coisa pode, no entanto, desmultiplicar-se quase ad nauseam: se funciona, não tentes reparar; se está tudo ok, não faças ondas, etecetra :) Dá para ver imediatamente a quantidade de falácias que se podem construir e explorar à volta de uma ideia destas!
Subscrevo, porém, o princípio de que se pode começar por organizar entidades simples, na procura de uma solução, e “economizar” na complexidade sempre que tal complexidade não seja imediatamente necessária. Faz sentido? Para ilustrar, então é assim: se só precisas de 3 ovos e um quilo de farinha para um bolo para 2 pessoas, e não vais mesmo ter mais que duas pessoas a consumi-lo, porque irás por uma dúzia deles e adicionar mais 3 quilos de farinha? Se puseres, por exemplo, mais açúcar do que na receita, tal pode não ser necessário, mas contribui para uma solução personalizada - o excesso de farinha ou de ovos, não. Seria um desperdício e iria exigir mais esforço e energia para preparar o tal bolo. Provavelmente, iria consumir mais tempo, ainda que marginalmente.
Acho que a história do bolo ilustra de forma simples, mas conveniente e aproximada, a razão porque a rasoura de Occam tem a ver com o que estou a refilar desta vez. É que o indivíduo, ignorante de como se programa Java (era esse o caso, eu estava a desenvolver uma solução de Java), entregou-me inicialmente a mim o critério de encontrar a solução adequada ao modelo e necessidade do Cliente, com os recursos que dispunha (eu e um colega da empresa dele) e no prazo estrito que o orçamento permitia. Disse, astutamente, que era porque eu tinha experiencia e provavelmente sabia mais que ele. Cínico. Mas, como ele tinha lido umas coisas sobre o assunto, e até já tinha “vendido” uma arquitectura e tecnologia específica ao Cliente, havia também essas restrições ( mais conhecidas por “constrangimentos de projecto”, penso que por causa de tradução do inglês “project constraints” e por falta de “melhor” na nossa língua :-D )
Enfim, arregacei as mangas e, como o prazo era ESTRITO e éramos só dois a pegar naquilo, lá fomos (ou fui, pois assumi eu essa responsabilidade, como me pediram) aplicando a tal rasoura à nossa maneira. De um conceito que nos parecia "ingerível", tantas eram as premissas e complexidade aparente, lá racionalizámos aquilo e produzimos algo que funcionava eficientemente, cumpria as especificações à letra e produzia os resultados desejados – tudo isto a tempo e com os recursos existentes. Não ia haver deslize no prazo! Não ia haver desvio ou alterações às specs! Ia ser cumprida a arquitectura “vendida”, a solução esperada tanto pelo Cliente como pelo meu empregador.
Seria a primeira vez, desde que regressei a Portugal. Enfim, a novidade agora, realmente, é que quem estava “in charge” era mesmo eu, portanto eu tivera a possibilidade de o fazer, aplicando a minha experiencia e só competências reais (não inventadas!) e outras que adquiri para o efeito – claro que tive que estudar a tecnologia! Assim, pude fazer aquilo que sabia, como realmente sabia. Incluindo que aprendi algo novo, de novo, e apliquei-o. Isto aliado à competencia do meu colega e a sua tenacidade e capacidade de adicionar valor real e trabalho, resultou. E, como esperado, foramos bem sucedidos.
Mês e meio depois vieram as férias e já tínhamos o conceito a funcionar, na prática já com mais de 90% do trabalho feito. No regresso da recreação estival, iríamos ter apenas mais duas semanas para terminar, mas era claro que iríamos fazer um brilharete. Portanto, pela primeira vez em anos, fui de férias, e também pela primeira vez levei um sorriso de missão cumprida e alívio por ter um projecto a fechar a tempo e com sucesso.
Talvez por pura aplicação da lei de Hofstadter, já que eu estava tão contente com o prazo a ser cumprido, eis que o nosso personagem não perde tempo nas férias, contrariamente ao que eu e o meu colega fizéramos. Não foi à praia ou acampar. Ou se o foi, levara com ele um livro. Um livro técnico recentemente comprado e que ele devorou, um desses livros de 80 euros que incluem exemplos e código que se pode descarregar, com exemplos funcionais para cada capítulo. O tipo de facto, reconheço-o, fez o extraordinário esforço de ler aquilo mesmo, experimentar tudo e, talvez espicaçado pela minha atitude desafiadora anterior, “convertera-se” até a usar Linux, não fosse eu gozar com ele por causa disso. Foi como se ele se tivesse agarrado a algo para provar que de facto “sabia” e que não era nenhum mentecapto, mal grado o facto de que nada o livraria da dúvida se era ou não, pois o resto da atitude e postura jamais deixaria que tal realidade deixasse de existir.
À parte o mérito a dar ao esforço que fez o indivíduo, a história complicou-se mesmo foi quando ele me abordou, no final das férias e a 2 semanas do fim do projecto, e manifestou que queria mudar de tecnologia e de solução. Queria que aplicássemos a que ele “aprendera” no livro. Ele até achava que não tínhamos feito nada de jeito, pois fora capaz de fazer o “mesmo” que nós, com muito menos esforço e num dia, só com os exemplos do bendito livro! :)
Incapaz de refutar algo que na realidade eu ainda desconhecia, escutei-o. Bem, na verdade, escutei foi mesmo porque ele era o “chefe” e eu, externo, não ia poder dizer-lhe o que realmente pensava sem que isso tivesse alguma consequencia desagradável para a minha sobrevivência financeira e a da minha família.
Mesmo assim, lá perdi 3 preciosos dias a estudar a questão e a experimentar. Sem sucesso, alias: as premissas dele estavam erradas, eram falaciosas ou baseadas em assunções erradas ditadas pelo facto de que ele era um ignorante completo na linguagem. Ele assumira que a conversão para a nova tecnologia implicava apenas “copiar e colar” o nosso código dentro da estrutura providenciada lá por aquele livro, e assim as coisas iam funcionar. Infelizmente, claro que não ia ser assim, e se eu perdesse mais tempo, entao as horas iam-se e o produto jamais ia ser completado a tempo :(
Por isso, abandonei aquela ideia e voltei a por o meu esforço em acabar o que eu sabia que já funcionava. O tipo, com a arrogância habitual dos tipos como ele, simplesmente desapareceu e nem sequer tive oportunidade de o avisar disto. Nem tempo para o fazer, concentrado em fazer uma entrega real e que funcionasse, como eu estava. O produto, esse, ficou acabado e pronto para demonstração. A tempo. Da maneira que fora previsto e fechado.
Pois, o tipo ficou furioso. Incapaz de combater a realidade de que o que eu fizera era de facto funcional e adequado, optou por fazer aquilo que esse tipo desprezível de carácter faz melhor: manipular o respectivo Chefe. Mentir sobre o produto. Menosprezar o esforço feito, e por em causa a competência de quem o fizera...
Pois, conseguiu convencer o Chefe, usando apenas os exemplos do livro (que, claro!, nao funcionavam para a solução em causa!) de que aquela era a tecnologia que devíamos ter usado desde o inicio. E que era melhor para o cliente. E que ele era capaz de fazer aquilo numa tarde, apenas com os exemplos e copiando para lá partes do nosso código.
Infelizmente para ele, não conseguiu ludibriar inteiramente o Chefe quanto à sua afirmação de que não usáramos a tecnologia "pretendida" ou "ideal": ele próprio tinha EXIGIDO a outra, a que usáramos, por instruções dele, restringidos ao que “vendera” ao Cliente. Nem conseguiu convence-lo de que o nosso produto não funcionava: funcionou mesmo, ali a frente de toda a gente. Contra factos, dificilmente se pode argumentar. É o ónus da prova :)
Mas, conseguiu algo que eu admiro completamente e de que jamais eu seria capaz: convenceu o Chefe dele de que os exemplos do livro eram o “melhor” para o que o cliente queria e, pior, que seria capaz de o fazer com “copy & paste” de pequenas (poucas!) partes do codigo que ja produzíramos... mesmo que nada do que mostrou realmente tivesse algo a ver com o modelo de negócio que era para implementar. (2) Extraordinário!
Obviamente, os últimos dias foram passados por ele a tentar fazer isso mesmo. Quando não estava a exigir que outros o fizessem, era triste, patético, vê-lo a bufar ali ao computador a tentar copiar o código e não perceber mesmo para onde e como, e, ainda, sem que nada funcionasse, exigindo que fosse eu a fazer com que o seu conceito funcionasse - pois ele não dominava Java para isso, embora jamais o tivesse admitido nesse contexto. Na verdade, apesar de o ter dito várias vezes, repetidamente afirmava que aquilo não podia ser complicado, o Java, e que bastaria apenas suar o "Google" para aprender o suficiente. Uma óbvia manobra para ganhar controlo, menosprezando os outros...
Era mais trágico do que cómico e eu não estava mesmo com muita disposição de me rir, ocupado que estava mentalmente com o autocontrolo necessário para não o mandar para... enfim, imaginem.
O lado de rufiazito de escolinha nesta altura veio à superfície, provocando-me, maldizendo o nosso código e resfolegando que estava tão mau que nós é que íamos ter que fazer a conversão – nunca admitindo a verdadeira causa, a sua total ignorância do que estava a fazer e o seu erro de avaliação. Nem raciocinando a falta de oportunidade de tudo isto. Nem se coibindo da sua total falta de educação. O tipo consegue mesmo ser ordinário e inconveniente, e pelo que me disseram, muitas outras pessoas na organização o detestam por isso, e não só.
Na prática, aquele projecto resvalou no final. As minhas horas acabaram e eu já não pude ajudar mais, o colega que la ficou esforçou-se a dobrar para satisfazer a obsessão do “chefe” ao mesmo tempo que terminava o produto que realmente funcionava, pois pelo menos haveria algo para entrega!
Quanto à "rasoura" de Occam, obviamente que, pelo principio postulado, o que eu fiz esta correcto. A decisão, como engenheiro, foi a correcta e produziu o resultado esperado – dentro do prazo e dos custos previstos. Em vez de complicar e ir procurar soluções mais complexas, fiz exactamente o que a "receita" mandava com espaço para expansão, para acomodar o crescimento que fosse necessário ou para adoptar complexidade à medida, de forma versátil. É deste tipo de coisa que me orgulho e que faz com que me sinta bem com o que faço e a forma como o faço.
Mas acho que foi inútil. Tal como se diz na Wikipedia, mostrando os meus prorios sentimentos sobre isto:
"
O trabalho de freelancer reserva surpresas tanto positivas quanto negativas. Dentre as positivas podemos citar a liberdade de horário, a flexibilidade de orçamentos e os desafios constantes, provocados pelas trocas sucessivas de ambiente de trabalho. No entanto, existem obstáculos algumas vezes grandiosos, como falta de liquidez financeira, pouco valor reconhecido e captação de novos projetos.
"
Nem mais! :-D
Entretanto, o personagem vai continuar a ser “chefe”, os seus complexos é que vão influenciar as suas decisões, o seu critério não é racional. Ele vai continuar a fazer isto :) Adicionará para sempre uma data de “complexidades” desnecessárias, extemporâneas aos projectos a que estará associado. E fá-lo-á sempre irracionalmente e conduzido pela sua necessidade de se afirmar ou, quiçá, de "pisar" os outros.
Pelo menos a mim não o fez. As horas esgotaram-se antes de eu ter que enfrentar a sério o meu desconforto, o que estava eminente. Mas mesmo assim, saí satisfeito porque fiz o meu trabalho, entreguei o produto a funcionar e não deixei mais um bully atazanar-me o juizo. O colega que trabalha com ele e que por lá vai ter que ficar, já não teve essa sorte...
Só posso dizer, ao Chefe do tal personagem: aplica lá a “Occam's razor” a esse gajo e simplifica a tua e a vida dos que aí estão mesmo a fazer coisas úteis. Esse tipo gera mais "entropia" do que progresso. Como? É simples, põe o gajo sozinho na sala da correspondência, onde é competente e pode ir lendo uns livros, ou mete-o como porteiro do prédio. (3) Aí, poderá mandar em algo, mas sem te lixar a ti com F grande e sem fazer o mesmo aos Clientes, colegas e chefes. Ou então, manda-o para a escola. Lá, no pátio, sempre deve haver mais pequenos que ele para ele poder fornicar o juízo.
No final, só me resta perguntar: como é que um espécime destes ainda por lá anda? Pior, como é que lhe dão a responsabilidade de ser “chefe de projectos” ?! Aqui, já não é a Rasoura de Occam que se aplica :) É o principio de Peter (3), a explicar o fenómeno. Mas disso, falarei em outro post.
Vosso, sempre,
-Sergio
(1) Na wikipedia em português, infelizmente a expressão "Occam's razor" está traduzida para "navalha de Occam", o que parece tornar essa tradução oficial; parece que de facto é essa a forma que se utiliza atualmente na nossa língua, e pela qual assim é referida nas faculdades, mas está errada. No caso, a palavra "razor" não se refere a uma "navalha" nem a uma "lâmina", pelo menos não com esse sentido literal e estrito. Refere-se antes a um instrumento de marcenaria que se chama "rasoura" em português e que serve para aferir se uma superfície está lisa e uniforme, ou para a corrigir até que assim fique, o que aliás é ilustrativo do princípio postulado por William d'Occam (ou William of Ockham). Quando muito, deveria chamar-se "plaina", o que seria mais aproximado à ideia do que "navalha". Por mim, eu prefiro usar "rasoura", mesmo :-D
(2) Na realidade, o produto proposto por ele tinha a ver com o modelo de comunicações e integração de sistemas, genérico, que tinhamos que usar. Tratava-se de uma ferramenta, uma “framework” em que o modelo de negócio podia ser implementado, numa aproximação diferente da que eu usara – em que eu tivera que programar a solução. Naquela “framework” seria possível usar conceitos de mais elevado nível, sem tanto recurso a programação, pelo menos aparentemente. Na realidade, isso não se veio a verificar, pois o modelo de negócio exigia na mesma que houvesse muita programação para o implementar. O código já feito para outra tecnologia, só marginalmente se aplicava a esta, sendo que na mesma teria que se dispender muito esforço na nova implementação. Por outro lado, e mais importante, o que ele mostrou de facto nada tinha a ver com a solução e não mostrou nenhuma solução concreta para o modelo do Cliente. Faz sentido? De qualquer forma, não é na última semana que se aparece com uma alteração tão profunda como esta, sem comprometer totalmente a viabilidade do projecto. Se ele não me tivesse restringido a uma tecnologia ou ferramenta logo de inicio, seria viável usar aquela nova solução. Na ultima semana, como se verificou, claro que não. Antes de mais, esta situação revelou grande imaturidade e falta de realismo como gestor, já para não falar da incapacidade e ignorância técnicas. Lá por onde andei, chama-se a isso ser “reckless”, entre outras coisas menos agradáveis.
(3) Tirando o meu sarcasmo aqui patente, de facto acho que o principio de Peter se aplica fenomenalmente neste caso. Não o recomendaria como porteiro ou office-boy, isso é ironia, mas ficou evidente que ou o individuo tem muito que aprender antes de lhe ser concedida uma função de chefia, ou esta simplesmente ultrapassa a sua competência. De resto, fiquei impressionado com a sua tenacidade como fiquei surpreendido com a sua falta de principios e educação. Maneiras não são necessárias para se ser um bom técnico, mas bom senso e bom relacionamento humano já são características desejáveis, até fundamentais, para se ser gestor bem sucedido a chefiar pessoas e equipas num ambiente de empresa e projecto.
Idealismos parvos e serôdios, coisas pessoais e ideias descuidadamente misturadas, emocionalmente atiradas para dentro duma sopa sem sentido e sem receita, fazem com que eu escreva.
Escrevo parvoíces medíocres, não me importo que o sejam, desculpo-me com a insónia. Não escrevo para ser lido, aqui em Portugal isso está reservado ou a estrangeiros ou a alguns, mais ou menos talentosos, a quem acho que as editoras dão o direito de serem publicados – mesmo que estas nunca leiam o que eles e elas escrevem.
Mas quando escrevo, faço questão que faça sentido. Que o meu discurso seja coloquial e que reflicta as minhas emoções e as dos meus personagens – ou o meu próprio. Que aquilo que eu escreva seja bem escrito. Porém, a nada chegarei com esse esforço, afirmam-me...
Enfim, não se pode escrever em Português, dizem-me. Ou seja, poder escrever, pode-se, mas que não se espere viver disso, que não haja ilusões. Portanto, e sem muito mais por onde estrebuchar sobre o assunto, o português não é, portanto, uma língua morta. É só defunta. Está em estado terminal, ou em limbo indefinível. E, pelo que oiço, nem o português do Brasil e as suas editoras tubarónicas trazem qualquer esperança. Só mesmo alguns africanos ainda conseguem convencer as suas editoras financiadas pelos seus estados a serem publicados. Infelizmente, vejo mais publicações de africanos poetas e brancos do que de africanos pretos e de prosa e discurso puro – e refiro-me aos que se dão ao trabalho da expressão portuguesa, claro.
Surpresa, hein? A nossa cultura, essas coisas todas que esses putos mal aconselhados continuam a estudar, mesmo os estrangeiros, mesmo lá no fim da Europa, de África ou da Oceânia – da Ásia? - não tem mais quem as publique.
É pá, ter tem: há sempre uns imbecis que podem imprimir páginas e que te dizem que podes perfeitamente pagar-lhes para te publicarem ou, claro, podes sempre oferecer o teu trabalho árduo, sem eles fazerem nada por isso, e até te publicam a título de lhes ficares eternamente agradecido, ou agradecida, por te terem feito o extraordinário favor de tentarem vender os teus livros, e de nada terem feito por isso – nem tentar vender.
Pois, e nem pagam o teu trabalho, nem promovem, nem nada disso. Inverta-se a coisa: tu é que terás a honra e o benefício de te terem publicado, e, aliás, fica super contente de terem ganho dinheiro contigo, aliás foi tão pouco que até te devias sentir envergonhada ou envergonhado por isso (notaram a minha tentativa de ser “politicamente correcto” aqui? E ainda nem comecei a falar das razões porque continuo a escrever com a “ortografia” antiga...).
Para mim, isso, “essa” dos “editores” a que me refiro, que infelizmente parecem mais que as mães, chama-se chulice. Pura e simples. É a mentalidade de bar de alterne, que pelo menos não engana ninguém, mas levada ao mundo dos editores (notem por favor a ausência de maiúscula na palavra “editor”!!). Os quais, se calhar, até vão lá prós bares de alterne gastar com as putas (que não dormem com eles, mas lhes sacam noites épicas de champanhe) o dinheiro que ganham com os livros que publicam de pessoas como tu e eu.
E depois vêm os vendidos e efebos que se fazem passar por críticos mas que são pagos como tal, e cumprem a solene missão de destruir tudo quanto fazes, a não ser que eles próprios tenham a perder com isso – ou a ganhar, por razões de “economia” de sociedade rica e muito jet-set, muito “não-se-sabe-bem-que-existe-mas eles-e elas-estão-lá-sempre”. Ou por compadrio e lealdade duvidosa que, reafirmo, deve ter a ver com a putas supracitadas e copos por lá pagos...
Sim, os que partilham do champanhe pago pelos tais idiotas que vão ao bar de alterne, e que aos efebos, às vezes ainda “armarizados” mas sempre não declarantes do facto, e respectivos acompanhantes, apenas oferecem as “migalhas”... mesmo que os ditos não o sejam, pelo menos do papel de efebos ninguém os safa :) Nem as putas lhes dão a “atenção” pretendida, elas sabem!!
Geralmente, esses imbecis, os tais efebos ou pseudo-intelectuais, habitualmente portadores de barbichas nojentas, onde se penduram pedaços de “pasta” dos seus caros almoços em restaurantes da moda, alguns com os seus cachimbos anacrónicos, todos vegetam em duas áreas fundamentais: a dos pseudo intelectuais, que já são “teus” profes lá em ”letras”, “esquerdistas” e atrasados, e que honestamente até acham que o que escreves não presta porque ainda não ouviram nenhum professor, jornalista de renome ou editor (onde é que eles estão?!) dizer que “isso” presta – ou que não te conhecem de lado nenhum e portanto defensivamente dizem que não prestas não vá o diabo tecê-las! - e os cretinos do costume que deviam estar a criar cópia para a Maria mas que as televisões, revistas e jornais contratam para escreverem cenas que nem eles/as quereriam escrever (pois, contratam putos que as escrevem, por salário mínimo ou menos!)
Idiotia institucional. Não há forma de resolver isto. Portugal é intelectualmente caduco, corrupto e falido desde os anos 60, e não falo de antes porque nem quero ir por aí!
E, mesmo nesse tempo, os escritores eram tão elaborados, tão cheios de merdices que quem é que os conseguia ler? Estou a falar lá do tempo da “outra senhora” (ou “senhor”) em que, se agora é Oito, então era Oitenta no sentido da parvoíce cultural. Perdia-se o talento pela pedantice e pela intelectualice que mediocrizava toda a gente.
Até os Comunistas eram medíocres, na sua tentativa militante, naquele tempo, porque para serem publicados nem sequer podiam ser espontâneos – nem pelo raio do partido, que os aperreava com a porra das “cassetes” e propaganda pós-estalinista e brejneviana que tinha que ser transmitida, em que eles acreditavam pia e militantemente, nem pelo lado do raio do governo da altura, do qual já estamos tão fartos de ouvir dizer o que fez, com a sua PIDE, os seus bufos e a censura :(
Mesmo assim, custa-me ter tão presente na memória a jacobinice irresponsável e ignorante da corja que se aproveitou da pseudo-liberdade propagandeada na altura e que libertinou tudo, inclusive o pouco património cultural e linguístico que tínhamos.
Fizeram de todos nós palhaços. Os seus líderes Estalinistas – alguns intelectuais também fanáticos e, afirmo, ignorantes – que, ainda por cima usaram a ignorância das pessoas para apenas fazerem valer a sua mensagem de “punho no ar” e as suas palavras de ordem até naquele tempo já vazias. Porque todos os outros eram burros, a mensagem tinha que ser repetida, inculcada nem que fosse a golpe de martelo, nem que se ceifassem os reaccionários (os que mesmo assim não engoliam aquilo, ou por serem ignorantes ao ponto de não adoptarem ou compreenderem nada de “novo”, ou por serem burgueses demais, portanto já “perdidos”).
E, nada disso foi de facto diferente do que os Fascistas faziam, com a sua promessa de equalitarismo e “bem para todos”, baseada na ideia de “eu sei mais que eles, portanto sou obrigado a submetê-los, fazendo por eles!”
Ou seja, saímos de uma, íamos ficando noutra, e pior. E tudo isto com a “honestidade” de sermos liderados por pessoas que “sabiam” mais que nós. Por favor!!
A Democracia protege-os e eles ainda estão no meio de nós. Eu digo: fiquem. Como exemplo daquilo que não queremos - nós, os tipos minoritários como eu - e eles que continuem a vegetar ali nas raias do absurdo e do ridículo, mesmo que os seus dirigentes actuais e vivos se façam “doutores” só para ficarem mais modernos, ou seja, mais à moda – mais burgueses? Já que o seu “Maximus Cassettis” pelo menos fez um esforço e formou-se na prisão, certo? Não deixou de ser “cassete”, mas o homem acreditava mesmo naquilo. E, no tempo dele, estava certo. Agora, já nem se pode acrescentar que seja “anacrónico”. Toda essa mensagem, hoje, é estúpida, insultuosa e ridícula.
No meio desta merda toda e isto tudo, ficou a cultura. Quem viesse a Portugal em 76, pensaria que só queríamos a Cicciolina – ou alguma nojenta equivalente e parecida. Note-se, ao menos a referida maluca foi eleita deputada e até tinha algumas ideias :) Ah, e esqueci de mencionar, era “anarca” - se é que ela sabia o que isso seria!!!
Os cretinos aqui do nosso lado que a usaram, ou para copiar tristemente e sem qualquer credibilidade, ou para obviamente fazerem todos os outros se sentirem imbecis e apalhaçados com a coisa da senhora, mesmo assim iam ao Condes ou a qualquer dos “piolhos” da cidade de Lisboa – e não sei se nas outras cidades também - ver as porcarias que por lá se exibiam. Mesmo esquecendo que, pelo menos, a puta da Cicciolina era séria. Ou, pelo menos, teve votos!
E, entretanto, os nossos jornalistas (Hey! Há excepções!!), nesse tempo, só escreviam sobre sexo feio e sujo, e que ou teríamos putas no poder ou os filhos delas... E os tais gajos (estranhamente, também havia “gajas” - com o devido respeito por ambos os géneros...) que escreviam a sério, passaram à história, ficaram calados e caladas, ou, por tabu, ou medo da merda do PREC, só voltaram a escrever sobre coisas inóquas e sem significado. Ficaram sem tomates, eles, sem clítoris, elas? Apesar da incorrecção anatómica, por favor, vocês percebem o que quero dizer!!
Sim, sei que alguns até não eram tão ordinários (ou vulgares) e até faziam parte dessa “classe” de intelectuais esclarecidos que viram o seu mundo ficar super esquisito – imagino eu, esperançado! - e cheio de uns quantos imbecis por aí fora que só diziam disparates, ou, até, os faziam. Nesse tempo, era o jacobinismo, feio e até violento à maneira portuguesa, sem guilhotina porém radical, intemporal, anacrónico, e estúpido à boa maneira dos “brandos costumes”. À boa maneira do “canto à beira mar plantado”. Tretas da merda :(
Tudo uma treta de estúpidos que continuo com a esperança de não estarem na altura a pensar nas consequencias que iriam ter para as futuras gerações. Uma cambada de pedrados, ignorantes convencidos, a tentarem “NÃO” ser como os Americanos, mas a copiá-los sem senso ou critério, e a acusarem a CIA de tudo o que lhes acontecia e de todos os males do mundo.
Cambada de cretinos e idiotas e irresponsáveis. Quanto mais inteligentes e “cultos”, mais cretinos, diz a minha história e vivência pessoal. Não sei como vos perdoar. E não vou. Só se me pedirem desculpa, e isso, obviamente, não é nem possível nem vai acontecer. Tristeza e vergonha, é o que me sobra sobre a vossa geração. E a intenção firme de que os meus filhos nunca sejam assim, nem venham a ser vítimas das vossas merdas como eu fui!
E eu, que gostava de ler, perdi. Perdi tudo. De repente, tudo que se tinha escrito, era “mentira” ou mau, ou, pior, era do “estado novo”. Ou sancionado pelo dito (se fosse publicado naquele tempo, então era “aprovado” por eles, logo não era “original” ou autêntico! Como se eu não pudesse pensar por mim!!).
Lembro que, até para ler o Fernando Namora, perguntei ao meu pai se era “normal”, se podia!!! O velhote, calmamente, não comunista mas politicamente correcto, respondeu: “Filho, é médico, é escritor. Escreve bem e vais de certeza gostar. Fala da nossa gente. Mas olha que é gente que nunca foi a África!”
Obviamente, sendo o meu pai como era, nunca me explicou o que era ser comunista, e jamais achou que isso era importante relativamente ao Namora. Era Cultura, era Português, estava acima “disso”. Por isso, lá estava na estante.
E eu gostei. Li e gostei. Obrigado, Velhote.
Mas, mesmo assim, fiquei em limbo. Claro que me lembro de ler alguns autores que me impressionaram e me fizeram ler duas ou mais vezes o seu livro, desses dos antigos! Mas, em alguns casos, tive praticamente que ir para a Universidade, e absorver dicionários, vocabulário fora de uso ou regional, e ainda muito orgulho nacional, para os conseguir sequer entender!
O Eça escrevia coisas de cordel. Não? Bem, ele escrevia romances. Sabem? Romances. Linguagem elaborada e parva, à maneira da época. Descrições longas e detalhadas. Coisa de Eça. E outras e outros.
Agora, vejo apenas uns idotas e alguns com talento. Os de talento, geralmente são tão experimentais que só gajos como eu os aturam – ou só gajos e gajas que sabem que alguns desses de talento ganharam o Nobel, apesar de serem pessoas execráveis, cretinas e estúpidas – e anacrónicas – como é o caso do imbecil do Saramago. Que aliás escrevia bem, mas que, para não variar, não escrevia da forma que nós todos podemos escrever – ou ler.
E os de Talento, também aparecem e passam despercebidos, quase sempre (pelos vistos, tirando o cretino do tal Nobel...).
Pelo menos se não escreverem como o imbecil supracitado, conseguiremos ler o que escrevem, Deus-que-ele-não-acreditava-que-existe o tenha - ou o Diabo que o tenha e carregue, e eu suponho que ele também não acreditava nesse ranhoso. Bem, nem eu, e já agora, espero que de facto fosse coerente, o tipo.
Mas voltando ao Talento, à vontade de escrever e expressar emoções, ideias, vivências. De contar histórias. Nós, comuns, se quisermos expressar e transmitir ideias e histórias, fá-lo-emos de uma forma natural, certo? Contar histórias é um dom. Como cantar, tocar um instrumento e fazer música, fazer teatro. Ou pintar. Ou escrever.
A minha maior surpresa sobre os escritores portugueses, porém, não é nada disto. :) Sim, porque tudo isto que já falei não é pessoal.
Cresci numa família tradicional do Estado Novo, sem surpresas, espero, a julgar pelo meu discurso até agora, eu próprio anacrónico por ter sido o último. Quer isto dizer quer fui o puto que veio 15 anos depois do meu irmão e 13 anos depois da minha irmã. Eles são meus padrinhos de baptizado. Enfim, que remédio, até eu acho que isso seria uma escolha natural para os meus velhos, na altura: até tive que ser baptizado na Missão, que para mim ainda é a igreja isolada lá no mato onde havia uma série de gajos de batina. Aprendi, em tempo, que eram padres, e que alguns falavam italiano, embora o tentassem disfarçar e fingir que falavam a língua de Camões, a única oficialmente aceite lá no sítio :)
Não me pergutem, eu não me lembro dos pormenores. Só me importa agora para esta conversa (já que aceito comentários, é uma conversa e não um monólogo), que eu vivia rodeado de pessoas que não falavam português, ou porque falavam um dialecto ou outra língua, e que cresci a ler livros de cordel de um autor que não era português: um tal de Emilio Salgari. Sandokan e cenas assim. Já nem me preocupo com a questão de se “mal” ou “bem” traduzido. E até havia o Asterix e o Tim-Tim, na banda desenhada, mas quando era texto eu lia mesmo o Salgari.
Mas enfim, então qual seria a surpresa? Pois, o facto de que quase (quase!) tudo o que eu li quando era miudo, e que eu me lembre ainda, não foi escrito por portugueses. Tirando Irene Lisboa e os seus “livros” para miúdos, que fui obrigado a ler e em que os personagens se chamavam “Senhor Doutor Isto” ou “Senhora Dona Maria Aquilo”. Tirando esses, eu lembro-me de Enid Blyton. Ou do parvo do Salgari. Ou até da Agatha Christie, de cujo nome só me lembro desse tempo por causa das capas dos livros que a minha irmã lia.
Mesmo assim, o meu velho tinha lá na estante, entre uns quantos de vários autores estrangeiros como Lenine, Karl Marx, Henry Miller ou Hemingway, um livreco com um titulo sugestivo: “ A selva”. A capa, essa era sugestiva também, parecia a capa dos livros de cordel a que eu tinha acesso, e eu li aquilo.
Completamente convencido de que se tratava dum “Salgari”, guardei-o exactamente na mesma prateleira onde guardava as tretas do dito. Só anos depois vi que o autor daquela cena era Ferreira de Castro, e, aliás, foi só quando li propaganda comunista acerca do homem num “Avante”, perdido numa mesa de centro na Junta de Freguesia do Laranjeiro em Almada. Para chatear, e esquecido de semelhante livro, no Canadá ainda tive que levar com um amigo, comunista de gema, sindicalista lá na “Union”, e pouco literato como de costume (tinha quarta classe e era operário), que quando viu tal autor na minha estante, assumiu imediatamente que eu era comunista.
Será que o Ferreira de Castro era mesmo comunista, o gajo que voltou teso a Portugal e gastou o pouco que tinha numa pensão (uma Pensão=lugar onde se dorme) só para engatar uma gaja? Esse livro dele, apesar de intenso e directo, nao me conseguiu levar a ler mais nada dele. Desculpem. Mas, pelos vistos, li algo do individuo. E guardei na minha prateleira dedicada ao Salgari. Não é insulto, é o que senti.
Longe da esperança de que alguma vez me cruzaria com algo que tivesse um significado especial, em termos de literatura, e que não fosse algo completamente chato, encontrei na estante do meu pai um livro, esfarrapado mas ainda legível, intitulado “25a Hora”. Ou coisa assim. Sem surpresa, era escrito por um estrangeiro qualquer e que eu não conhecia, com um nome ainda mais estranho mas que soava a “Jorge”. O tipo era romeno, e, claro, eu ainda não era capaz de o reconhecer. Mas li, sem interrupção o livro que por ser velho e barato, ainda por cima se desfazia mas minhas mãos.
Surpreendentemente, parecia que estava escrito em português, originalmente. Bom português. Com 14 anos, que foi quando o li, dei-me ao trabalho de ver quem teria sido o tradutor já que eu tinha percebido que aquilo tinha sido escrito por um estrangeiro.
Foi assim que li, com gáudio, que quem tinha traduzido se chamava Vitorino Nemésio. Impressionado outra vez. Não pelo excelso bicharoco, o tal narigudo açoriano, fanhoso e distinto, que participava em programas televisivos da “outra senhora” (que eu nunca tinha visto!), que me tinha impressionado já com coisas da escola, mas pela qualidade do português daquela tradução. O homem tinha feito um esforço e tinha conseguido.
A ideia do escritor português, claro, não está perdida. Eu acredito. Tirando os que são “publicados”, que como disse, se submetem à corja, ainda temos a Internet. Mesmo assim, eis que há alguns exemplos de coisas boas... ainda assim, pela “mão” de alguém:
Há uns bons anos atrás, em Toronto, que é uma cidade muito mais interessante que Lisboa e muito menos “velha”, comprei no “Portuguese Book Store” um livro para miúdos. O meu amigo José Tomás, segundo me disseram herdeiro do “velho Tomás” que foi quem fundou aquela livraria, foi a quem fui pedir para mo vender. Creio que sua irmã, antipática, abrupta e reservada, sem palavras extra para quem não conhecesse pessoalmente, foi quem me levou lá “atrás” onde o José se enfiava com o seu computador e sonhos. E ele, pai de miúdos e miúdas como eu, simplesmente, recomendou um livro, distraidamente e sem compromisso, como lhe era habitual. E eu comprei-o, entre conversas de onde é que iríamos fazer a nossa “festa” e beberete de casais suburbanos nesse fim de semana.
Era uma prenda para a minha miúda de 9 anos que me estava a visitar. A prenda de Natal, que só eu, o pai, compraria. Ou seja, a minha esposa dar-lhe-ia muitas prendas, e a única que eu “podia” dar era aquela. Minha “esposa”, neste caso, define a também pessoa que ia ter que “aturar” a minha filha, naquele Natal. E era, mesmo, casada comigo, e até já tínhamos um filho.
Em português, o livro atraiu-me porque parecia algo que a Enid Blyton escreveria. Nem vi quem era a autora, era uma mulher, li o resumo e era fixe, e a minha filha ficou agarrada àquele livro e depois ainda tive que lhe comprar mais um. Na mesma semana. Custou-me uns 10 Dólares canadianos, o primeiro, já não me lembro de quanto o segundo. Surpreendentemente, o preço em Escudos era mais elevado, e disso eu lembro-me. Muito mais elevado. Tipo, triplo.
Abençoada a autora daquele livro, a miúda começou, e continuou a ler!
A autora do dito veio a ser ministra da educação. Em Portugal. Segundo sei, quando ela escreveu aquele livro, era professora do secundário. Ou coisa assim. Fiquei, e ainda estou, impressionado.
Isabel Alçada, porém, já fora esta conversa, é uma pessoa que admiro, nem que seja pelo episódio da minha filha (agora a tirar um mestrado em Literatura Comparada). Aliás, a miúda nem o reconhece e já nem se lembra que o primeiro livro, e em português, fui eu que lho dei, ou que era da Isabel Alçada, agora pessoa “non-gratta” dentro das suas ideias “Bloquistas”, esquerdistas e radicais de miúda sem experiencia. E, ainda por cima, nem foi comprado em Portugal!! LOL!
Tenho muitas notas destas a partilhar. Como a Margarida Rebelo Pinto e a sua extraordinária capacidade de nos fazer sentir que tudo o que escrevamos, na primeira pessoa (O que É difícil!), só seria pelágio, tão intensa e pessoal ela consegue fazer-se, como narradora! Aponto-vos, pelo menos, o seu “Português Suave”.
De novo, e para lembrar sem desmérito à autora, foi o meu favorito Alçada Batista, o consagrado Alçada Batista, que a apresentou... Como sempre, alguém de talento, a ter que ser “apresentada”, não só pelo seu talento e por escolha e “promoção” dos/das editores/as, mas porque alguém famoso a “levou lá”. Desculpem, a Margarida Rebelo Pinto não precisava disso! Ela É boa escritora!! Fantástica e original, a mulher, sem “experimentalismos” de discurso, nem compromissos de conivência social, consegue pôr-nos na pele dos seus personagens, quando não na dela própria!
Não preciso de falar mais sobre isto. Em Portugal é preciso cunhas. De uma forma ou de outra, nenhum escritor “novo” português se deveria sentir diminuído por ter sido apresentado por uma celebridade ou coisa assim. Ou, mesmo sendo consagrado, por ter que ir mendigar entrevistas na TVI e na SIC, em que o apresentador autoriza que mencione o seu livro, fugazmente, quase furtivamente às vezes, e mesmo antes do intervalo de quinze minutos para “comerciais”...!!! As da “2”, as entrevistas, já se sabe que, pelo menos, não são tão comprometidas assim. Como eu disse, reconheço as excepções, pelo menos algumas, já que não compreendo outras. Coma as da "3", na rádio, mas nunca se sabe...
Os editores, esses, é que se deviam esconder. Esses é que deviam chorar de vergonha e nunca mencionar nos seus cartões de visita que são editores, e estou a falar dos “júniores” que ainda podem ter carreira, se é que existem. Aos outros, nem consigo atribuir-lhes o E maiúsculo. São mesmo uma vergonha e uns vendidos. E nem sequer os acho bons (ou boas) business-people, uma vez que não arriscam e não fazem nada. Nada. Nem de facto promovem os autores. E, pelo que sei, nem promovem os próprios livros que publicam!! Acham normal?
Claro que deve haver excepções. Essa é a regra! Mas não é isso que me têm dito, nem o que tenho experimentado.
Fico, pelo menos, com uma mensagem para os pseudo/pedanto/intelectuais portugueses: Parvos! Especialmente se são “editores”. Transformem-se em gente!
Aos outros, que até gostam de “escrever”, lembro-vos do facto óbvio: na Internet, nos Blogs, os “Editores” são mesmo quem nos Lê. Não dá dinheiro, não nos iludamos, mas pelo menos alguém nos lerá e fará críticas mesmo honestas.
Vosso, sempre,
-Sérgio
PS: Hoje é o dia de anos do meu irmão, Humberto de Sousa. Este post, porém, NÃO marca a data. Sinto ainda demasiada tristeza pela perda, demasiada confusão, e nunca iria marcar esta data com um "artigo" destes. Aliás, este artigo já foi escrito há dias e só hoje o publico. Se me inspirar devidamente e com a dignidade que meu irmão me merece, ainda hoje dele falarei. Mas não posso prometer :( Não posso :( Ainda só tenho saudades dele. Muitas!
... e que o dito esteja (quase!) tão perfeitaente actual e adequado ao real estado do tempo? E de espírito!
Dá contade de rir, mas dá-me sempre para "recomeçar" logo que começa lá fora a cheirar a sol e a calor. É a "febre de Primavera". Nada de novo por aí ;-)
Em boa verdade, já ando há que tempos para fazer esse "recomeço". Tive foi que lamber umas feridazitas primeiro, na calma e solidão das noites insones. Esperadamente, ainda doem mas já não me parece que vão abrir de novo - não as mesmas! - por isso, cá vamos. Agora só são mais umas cicratizes a encouraçar as novas feridazitas que aí virão!
Funciona em ciclos. Como a Primavera. Boa :)
Parece é que, realmente, não tenho tido "Primaveras" e a tal febre, desde a data daquele post. Hmmm, é verdade. É mesmo verdade. :-(
Mas agora, o tempo está a melhorar.
-Sergio
Finalmente, o sol! Está um friozinho a lembrar ainda o desconforto das ultima semanas, mas pelo menos já se espalha por mim o optimismo. O sol vem aí!
Agora so falta marcar as férias, economizar uns tostões para as ditas e ir vivendo com essa idea a servir de estimulo para se continuar a voltar a acordar todos os dias e ir trabalhar.
Vamos lá a isso! :)
De todas as coisas que me deviam preocupar agora (leia-se, "hoje em dia"), confesso que o Fisco e as coisas relativas a impostos não estão em posição muito alta na minha lista. Tais assuntos fazem-me o mesmo tipo de mossa que o Caso Freeport (do qual tenho opinião forte, mas relativamente à estupidez e indecencia de quem fomenta tais coisas com intuito de criar instabilidade) ou o já nauseabundo julgamento Casa Pia.
Encolho os ombros e abano a cabeça, mais do que com indiferença, com a indignação e frustração de quem já não espera muito do seu País e sua classe política ou da classe de individuos aparentemente destituidos de moral e principios mas prenes de egosimo e narcisismo que fazem o colegio dos nossos juristas, advogados e, tremam!, dos nossos magistrados e juizes.
Uma quebra de confiança geral na instituição Judicial e Legislativa é, também e no fundo, parte daquilo que um instituto recentemente veio chamar a atenção por ser um sinal grave de futura instabilidade social.
O pior é que mesmo exercendo o meu direito de eleitor, o que vejo é que qualquer mudança que se possa fazer é simplesmente para mais do mesmo, para muito de pior, ou para ainda mais de incerteza, insegurança e inconsequencia - e duvido que eu seja único nesse sentimento.
Portanto, à desilusão junta-se o sentimento de total impotencia e incapacidade para nos protegermos ou escolhermos quem o faça por nós. Daí a um cidadão vir de facto a tornar-se simplesmente num ser amorfo mas que numa turba se comportará como um total selvagem anti-social (tambem conhecido por "hooligan"), apenas vai um pequeno passo... Acho que temos visto isso a acontecer na Grécia e, mesmo, na Letónia, para além da "cena" com a criminalidade crescente que ja se sente por cá há uns bons tempos a esta parte.
Devo reconhecer que para mim o actual Governo, no meio da defecação intelectual e a excreção imparável de maus principios geral, comum ao "meio" em que chafurdam todos eles, destaca-se por ter pelo menos "parecido" querer fazer algo e por actuar de forma proactiva em casos que, no entanto, penso que qualquer pessoa de bom senso o memso faria. Enfatiso a expressão "bom senso": é que enquanto uns parecem tentar mostra-lo, outros simplesmente parecem querer mostrar-nos o quanto contrariados estão por não os deixarem também "brincar" e portanto vergonhosa e infantilmente tentam destruir a diversão de outros.
Mas o que suscitou a minha dúvida aqui, mais do que propriamente indignação, é como é que ainda nos regemos por uma lógica tão viciada no que se refere ao dever de pagar impostos. Refiro-me ao caso dos depósitos no Finibanco, nas Ilhas Caimão, um chamado "paraíso fiscal".
Primeiro, se é um paraíso fiscal, então que raio de cena é essa de se ter pagar impostos, ainda por cima num país que não é o das Caimão? Já aí não vos parece estranho, não?? Enfim, pelos vistos os próprios talões de depósito do banco lá tinham o avisoznho, portanto não é por aí que pode haver reclamação...
Depois, deixem-me só tentar estabelecer a lógica de raciocinio que me foi ensinada pelo meu "velhote" e outros anciãos com quem me fui cruzando ao longo da vida e que me influenciaram com conselhos ou exemplos. Esse senso comum a que me refiro, é o de que é honesto trabalhar-se muito, esforçar-se e dedicar-se, não gastar dinheiro em futilidades (ou, pelo menos, não muito), pagar os impostos e obrigações, contribuir para a Segurança Social de onde se espera mais ou menos optimisticamente que um dia venha a nossa reforma ou o alivio em momentos de doença, e juntar, economizar e preparar-se o melhor possivel para a reforma e para ajudar os filhos no seu espinhoso precurso da vida.
Faz sentido? Não fui eu o único que ouvi destas coisas, fui?
Não podendo nem querendo avaliar se os individuos a que as noticias se referem, foram ou não honestos trabalhadores que juntaram umas economiazinhas e as investiram onde lhes pareceu irem render mais, no entanto ocorreu-me logo que o "sistema" afinal pura e simplesmente desencoraja a honestidade.
Então, como me lembrava a minha mulher hoje de manhã, imagine-se que um tipo como eu leva uns 20 anos a trabalhar duro, paga impostos de todas as maneiras e feitios (como consumidor, ainda por cima, suporta o IVA em quase tudo!), desde impostos sobre o rendimento, impostos sobre transacções, sobre a venda da casa, sobre isto, sobre aquilo; no meio desse constante e vergonhoso sacar dos seus recursos, e vivendo com o seu salario que parece nunca acompanhar devidamente as necessidades e custos reais, la junta dinheirinho que vai pondo em contas a prazo e planos de investimento, dinheiro que ja é LIQUIDO de N impostos e obrigações e pelo qual ja se fartou de pagar e de repagar, necessáriamente!! E depois, lá se conforma e decide pô-lo a render num "paraíso fiscal", afinal porque se ficar por cá ainda o perde ou ainda tem que pagar ainda mais por ele e corre o risco de lhe sobrar muito menos do que planeara para a sua reforma...
Já estão a ver onde estou a chegar? Pois, ainda por cima, é acusado de "fraude fiscal" porque tentou protejer-se contra um estado irracionalmente dedicado a sacar e pouco fazer pelos seus cidadãos, mas que não deixa de empregar "fiscais" cuja personalidade parece ser a mesma de simples rufias treinados pela mafia para exercerem extorsão por todos os meios.
Vejamos, é bem possível, aliás parece mesmo que sim, que os senhores (ou senhoras) a que se referem tais noticias não sejam nenhuns santinhos nem nenhums velhotes reformados que trabalharam e sacrificaram pelos filhos e familia a vida inteira! Não sou ingénuo a esse ponto.
Pelo menos, porém, admitamos que, e seguindo um padrão geral que se nota quando se trata destas coisas, os "maus e feios" geralmente são uma minoria entre a multidão de gente boa e cumpridora (quiçá "bonita" :-D ) e por isso mesmo são mais visíveis do que as maiorias em geral. Há sempre tendencia de generalizar, isso é sabido, mas o facto anterior não deixa de ser verdadeiro. Assim, penso que é necessário apanhar e fazer cumprir a lei aos parvalhões que só causam instabilidade aos outros que se calam e "comem" constantemente.
Para mim o problema real não está aí, no entanto. O que acho é que se torna também em padrão visível o facto de que o nosso estado está constantemente a sacar, indiscriminadamente, e não dá qualquer esperança de que um individuo que seja de facto honesto consiga quebrar o ciclo da miséria e falta de prespectiva de futuro a que nos condicionam constantemente. E quando se imiscuem de forma tão obvia na vida privada de uns (ver as contas de cidadãos num Banco, ainda por cima no estranjeiro, a pretexto de investigar "esse" banco???!!) também o faz na de outros e, claramente, abusa do seu mandato e poderes. Para apanharem os "maus e feios" fazem-no por qualquer meio e, deplorávelmente, encurtam a liberdade e assustam, ameaçam e tiram a esperança aos que sempre para eles lá estarem contribuiram.
Onde é que já ouvimos falar disto, afinal? :-( Pois...!
A credibilidade, afinal o que está em causa no fundo, das instituições e do Estado acaba por ficar não mais do que ao mesmo nível da dos cidadãos infractores e perpretadores de "fraudes fiscais". É um estado pirata e, lamentavelmente, gosta de o ser e quem para "ele" trabalha não parece ter nenhum peso na consciencia ao fazer de rufia ao seu serviço (ignorancia ou patologia social?).
Se calhar a "crise" virá limpar isto tudo, com os cidadãos a entrarem em modo de turba indisciplinada, à grega :-), e a baterem finalmente o pé e em coisas. Ou virá só piorar irreparávelmente, se o "Estado" entrar numa de sacar ainda mais para se salvar, por qualquer meio e a qualquer pretexto, deixando os cidadãos sem força para se "calçarem", quanto mais para marcharem e gritarem insultos...
Vejamos este cenário:
- um miúdo que tenha que ser transferido de escola por ter mudado de morada;
- os pais pedem vaga, a escola diz que nao tem vaga; aliás, adiantam "mas ele já está inscrito numa escola, na de onde vocês vêm" (!!!!)
- os pais vão à DREL e expõem o caso (então mas não tem que haver vaga na àrea de residencia??? hein??)
- os da DREL sorriem e oficiam a escola em questão
- a escola por artes de magia coloca imediatamente o miúdo...
E, agora a outra parte:
- para efectivar a transferencia, a escola exige que os pais vão de folha carimbada em mão à escola da anterior residencia entregar essa folhinha EM PESSOA. Ah! e trazer de lá uma outra folhinha carimbada...
Acham normal???? :-O
É porque esses da escola não puderam enviar a porra da folhinha por FAX porque ((insere aqui uma forte razão inteligente)), claro!!!
Enfim :-( Óbviamente que a mudança de residencia não foi exactamente PARA A MESMA CIDADE!!!!
Como é que é possível? Será falta de inteligência ou apenas vontade de chatear?
| O suspiro, inesperado mas inevitável, surpreendeu-me assim que veio. A surpresa de suspirar, de novo. A supresa de sentir, de novo. Aconteceu e, desprevenido, fiquei a inspeccionar-me e a perguntar-me o porquê. É que desisti de sentir há tanto tempo, quero a protecção do oblívio, quero mesmo é ignorar tudo e apenas olhar em frente. Mas veio o suspiro. Invasor e surpreendente. Porquê? Não o queria, não o desejo, penso que é denecessário e inútil. Mas, sem escolha, sem respeito pela minha vontade, sem qualquer oferta prévia ou aviso, de assalto, soltei-o sem querer. E fiquei, supreso, a pensar em ti. Sim, em ti, doce desconhecida, em ti, linda alma solitária que me surpreendeste com as tuas palavras. Tu, que me acordaste assim de repente, e me fizeste soltar um suspiro. Como te esquecer, agora? Como deixar de pensar que existes, se o suspiro afinal veio, invasor e inesperado? O suspiro, um sussuro afinal, foi apenas um sonho que se soltou num murmúrio. "Existes?" Era uma pergunta e uma esperança. Afinal, apenas uma esperança. Será? Sabes, partilharei mesmo o meu sorriso contigo e serenamente levar-te-ei comigo por um caminho em que ambos seremos incapazes de não nos olhamos nos olhos, incapazes de não nos amarmos, incapazes de não ficarmos com as estrelas e o céu só para nós. Peço, por tudo quanto é precioso, que sim, que seja verdade, que não tenha apenas sido um suspiro perdido... |
| Dia de São Valentim. Dia dos Namorados. Só por ser hoje, escrevo isto. Sabes que vou apagar tudo, logo à noite. Tudo. Não estás comigo, mas tu és a minha namorada. Ainda não me queres, mas não deixas de me desejar. Ainda nem sabes quem sou, porque me imaginas diferente, porque tens medo que eu seja como tu receias tanto, mas não me resistes, não me ignoras, embora pretendas que nada significo para ti. Apago tudo, porque não te quero mais lembrar neste dia, e também porque não me quero recordar de que escrevi isto. Só vale pelo momento, pelo dia, pelo sentimento que agora intensamente me avassala, esse sentimento de estar só, e de ao mesmo tempo te saber aí, mas não minha. Não minha, ainda. Não agora. Te digo, se tivesses já escolhido, ambos teriamos o prazer do sorriso involuntário e expontâneo após um beijo inconsciente que não é mais que um toque dos nossos lábios, perdidos numa multidão qualquer, enquanto distraídos caminhamos por uma rua de montras. De mãos dadas. Distraídos. E depois, mesmo sem querermos, como se a natureza fosse nós mesmos, estariamos juntos num abraço intenso e tão longo que pareceriamos um só, sentiriamos como um só, fariamos como um só. Como se fossemos um só. Como se fossemos apenas parte de um momento do universo em que só nós mesmos existiamos. Os dois, em extase e em paixão. Numa carícia tão íntima, tão perto. A melhor carícia que te podia dar e que tu me darias também, a mais especial, que ambos partilhariamos com a mesma intensidade, a mesma vontade, o mesmo sorriso que trocariamos a olharmo-nos nos olhos. Olhos nos olhos, as almas e os corpos juntos, o universo já esquecido, o dia já insignificante, tudo o resto adiado por agora. Logo apagarei isto. Este texto não é mais do que um sentimento, uma perdida esperança. Se leres, sente. Ao menos isso. Só hoje. A natureza, o Universo, amanhã terá renascido, e tudo se renovará, tudo continuará. Mesmo que tenhas sentido intensamente o que te digo aqui. Ou mesmo que nada tenhas sentido. Mesmo que eu tenha apagado este texto, ou mesmo que o tenha aqui deixado. Até amanhã. E lembra-te. Sempre. (Dia de São Valentim, 2007) |
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